quinta-feira, 3 de abril de 2008

AR - part II

Tal como disse da última vez, que me sentei aqui a escrever, viver com uma doença crónica não é das coisas mais fáceis de fazer. Também tal como referi, esta condição só surgiu quando eu já tinha 25 anos, o que implicou que eu tivesse de reaprender a viver. Sei que todos nós vivemos acontecimentos que nos fazem ver a vida de modo diverso daquele que víamos antes de uma circunstância qualquer vir abalar tudo o que conhecíamos e tinhamos como certo e seguro. E, na verdade, quando ficamos doentes é também isso que sucede. Começamos a ficar doentes e tudo muda. Mas ao mesmo tempo o mundo não muda só porque nós mudámos e na maioria dos casos somos nós que nos temos de adaptar. Temos de nos adaptar ao trabalho que faziamos antes de ficarmos doentes porque o trabalho ficou exactamente igual e fomos nós que mudámos. Temos de nos adaptar à família que já tinhamos. Temos de nos adaptar à casa que haviamos comprado antes da doença aparecer. Temos de nos adaptar, ponto final. No meu caso, este ajustamento foi, relativamente, natural. O que não significa que não tenha havido um grande esforço meu para que tudo tenha sido, tal como afirmei, progressivo e natural. Porque na verdade, o meu aspecto exterior mantinha-se e manteve-se, fundamentalmente, igual àquele que tinha antes de tudo acontecer. E como quem me via, via-me igual, isso obrigava-me, no sentido mais positivo da palavras, a agir do modo que sempre agira. Por vezes, isso cria uma espécie de dupla personalidade - mas provavelmente podemos encará-la como apenas mais uma das máscaras que colocamos em sociedade.

quinta-feira, 13 de março de 2008

AR desde 1995

Tenho 37 anos e tenho artrite reumatóide há cerca de 12, desde 1995. Às vezes parece que passou muito tempo, outras parece que foi um segundo. Se pensar nos milhares de comprimidos que já tomei parece que passaram séculos, pelo contrário, se pensar na dor - como aprendemos a viver com ela - parece menos. Não é fácil falar sobre isto, por isso hoje acaba e continuarei noutro dia.

sexta-feira, 7 de março de 2008

É isto aquilo a que se chama teimosia?

Um registo para que nunca me esqueça desta fenomenal obra de Voltaire:
«[...] Martin veio a concluir que o homem era nado e criado para viver na inquietação, ou na letargia do aborrecimento. Cândido não concordava, mas não contrariava. Pangloss confessava que sempre sofrera horrivelmente, mas tendo afirmado uma vez que tudo ia às mil maravilhas, mantê-lo-ia sempre, embora não acreditasse em nada disso.»
Voltaire [1759] (2000). Voltaire. Trad. Maria Archer, Biblioteca Visão, Lisboa: 118.)

quinta-feira, 6 de março de 2008

nem sempre totalmente jovem

Há sempre partes do nosso corpo que envelhecem mais cedo do que outras e quando isto acontece temos de aprender a conviver com elas debatendo-nos com o paradoxo de em nós coexistir a juventude e a velhice.

domingo, 2 de março de 2008

entre o mar e as páginas de um livro

Conclusão: as pessoas independentes não são as mais felizes.
«E ela olha para ele com o coração palpitante sabendo que está a falar de um assunto sério, ainda que tenha dificuldade em entendê-lo, dois seres humanos têm tanta dificuldade em se entenderem, nada é tão trágico como dois seres humanos.»
(Halldór Laxness, Gente Independente: 304)

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

ler

A real book is not one that we read, but one that reads us.


Auden, W. H. on Books - Reading

Quote from Quotations Book

por que razão decidi ter um blog?

Isto de ter um blog é, no final das contas, uma decisão estranha que fica ainda mais complicada se tomar total consciência de que estou a criar este espaço para escrever, quase inevitavelmente, sobre mim. Sim, porque quando se escreve, queiramos ou não, passamos muitas mensagens sobre nós. Sendo eu uma pessoa bastante reservada, detesto que saibam mais sobre o que penso e o que sucede na minha vida do que eu mesma. Então, para quê criar um blog? A resposta está, quase toda, num dos posts anteriores, ou seja, porque uma querida amiga acha que seria bom criar este escape. Apesar do poder de sugestão da Margarida não ser maior do que eu, foi um empurrão que me pôs a pensar: por que razão não tentar? Talvez até seja divertido e uma espécie de fuga ao remoinho que as ideias e, principalmente, os pensamentos controem na minha cabeça. Mas tudo isto não elimina, por completo, a estranheza e o desconforto de lidar com esta nova e potencialmente desconfortável forma de exibicionismo que pode ser um blog.