«It has been my experience that folks who have no vices have very few virtues.»
Abraham Lincoln
domingo, 14 de dezembro de 2008
A falta de sorte e a felicidade
Há quem processe a informação da sua vida em voz alta e há quem o faça em silêncio. Eu pertenço ao último grupo. Sempre pertenci. Eis uma das razões pela qual talvez não escreva tão frequentemente neste blogue: porque escrever aqui é como processar a informação em voz alta.
A razão pela qual não o faço já a expliquei num dos posts anteriores mas, acima de tudo, tem a ver com um certo pudor em partilhar tudo o que se passa dentro da minha cabeça. Pontualmente, lá o ultrapasso e escrevo ou falo com alguém. Todavia, o resultado nem sempre é o esperado. Se estamos numa maré de pouca sorte, por exemplo, quando contamos o primeiro contratempo a alguém, é frequente recebermos umas palavras de simpatia e reconforto. Quando contamos o terceiro e o quarto contratempos já se fica com a sensação de que a pessoa que nos ouve acha que somos nós quem atrai o azar e/ou que está com pouca paciência para nos ouvir. E possivelmente tem razão. A sorte tal como o azar vai e vem. E quando o segundo se instala o melhor é ficarmos silenciosamente à espera que passe. O mesmo sucede quando se fica doente. Há dias falei com uma colega que está doente há três anos. Nos primeiros meses, foram vários os telefonemas que recebeu para saber como estava, mas ao final de alguns meses eram raríssimos os contactos do exterior para saber como se sentia ou como reagia aos tratamentos. O ser humano é assim. Não gosta de estar perto de quem está numa maré de azar. Será esse um dos defeitos da humanidade ou apenas uma característica? Se for defeito, é terrível e uma demonstração monstruosa de egoísmo. Se for característica, pode-se interpretá-la como sendo a única forma que nós temos para ser felizes. Todos (ou quase todos) vivemos em perseguição da felicidade e momentos e pessoas que não são ou não estão felizes lembram-nos de que aquilo que perseguimos, na realidade, não existe; e isso desanima qualquer um, não é assim? Como tal, é mais fácil ignorar a infelicidade dos outros e fingir que vamos sendo felizes na perseguição inútil e infrutífera da nossa felicidade eterna. Na realidade, a felicidade não é possível e fazer disso uma missão de vida é tornar-se cada vez mais egoísta.
A razão pela qual não o faço já a expliquei num dos posts anteriores mas, acima de tudo, tem a ver com um certo pudor em partilhar tudo o que se passa dentro da minha cabeça. Pontualmente, lá o ultrapasso e escrevo ou falo com alguém. Todavia, o resultado nem sempre é o esperado. Se estamos numa maré de pouca sorte, por exemplo, quando contamos o primeiro contratempo a alguém, é frequente recebermos umas palavras de simpatia e reconforto. Quando contamos o terceiro e o quarto contratempos já se fica com a sensação de que a pessoa que nos ouve acha que somos nós quem atrai o azar e/ou que está com pouca paciência para nos ouvir. E possivelmente tem razão. A sorte tal como o azar vai e vem. E quando o segundo se instala o melhor é ficarmos silenciosamente à espera que passe. O mesmo sucede quando se fica doente. Há dias falei com uma colega que está doente há três anos. Nos primeiros meses, foram vários os telefonemas que recebeu para saber como estava, mas ao final de alguns meses eram raríssimos os contactos do exterior para saber como se sentia ou como reagia aos tratamentos. O ser humano é assim. Não gosta de estar perto de quem está numa maré de azar. Será esse um dos defeitos da humanidade ou apenas uma característica? Se for defeito, é terrível e uma demonstração monstruosa de egoísmo. Se for característica, pode-se interpretá-la como sendo a única forma que nós temos para ser felizes. Todos (ou quase todos) vivemos em perseguição da felicidade e momentos e pessoas que não são ou não estão felizes lembram-nos de que aquilo que perseguimos, na realidade, não existe; e isso desanima qualquer um, não é assim? Como tal, é mais fácil ignorar a infelicidade dos outros e fingir que vamos sendo felizes na perseguição inútil e infrutífera da nossa felicidade eterna. Na realidade, a felicidade não é possível e fazer disso uma missão de vida é tornar-se cada vez mais egoísta.
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sorte e felicidade
domingo, 7 de dezembro de 2008

Esta foi uma das mensagens que me enviaram no dia do meu 38º aniversário e à qual eu respondo com: OBRIGADA linda amiga!
Porque gosto muito das diferentes "texturas" que compõem a pessoa tão especial que és;
Porque combinas a fragilidade e beleza desta rosa e a robustez e fiabilidade deste tronco;
Obrigada pela tua amizade e os votos de um dia muito feliz!
Beijinhos,
C.
o meu 38º aniversário
Fiz anos há pouco tempo e foram tantas as coisas que me passaram pela cabeça. Apesar da tonalidade mórbida que um comentário como aquele que vou fazer pode adquirir, acho que ele deve resultar de um pensamento recorrente quando se faz anos. Em primeiro lugar, é necessário lembrar que acordei às 5 da manhã no dia do meu aniversário, entrei no carro – estava imenso frio – e fui para Lisboa com o meu marido e amigo Bruno que às 9 e pouco da manhã me deixou à porta da Nova onde eu ia assistir a uma conferência internacional (o adjectivo é aqui importante para ilustrar o contexto onde me coloquei nessa manhã do meu 38º aniversário). Cheguei já atrasada, por isso quando entrei no anfiteatro já estava tudo sentadinho a ouvir um professor do King’s College. Entrei o mais silenciosamente possível, enviei um sorriso ao meu professor que estava sentado ao lado do conferencista e ali fiquei. Chegada a altura da pausa para café, estava sozinha no meio de muita gente que conversava entre si ou para si. Tudo bem. Olhei. Vi as caras e tentei descortinar estados de espírito talvez porque eu mesma estava a tentar perceber o meu. No dia seguinte, aquelas pessoas iam ser a minha plateia quando eu fosse fazer a minha comunicação e antes que eles me vissem, eu queria vê-los (a eles e a elas). Terminada a pausa para café, regressei ao anfiteatro – o mesmo onde defendi a minha tese de mestrado e que naquela sexta-feira, 28 de Novembro de 2008, me pareceu velho e a precisar de umas boas camadas de tinta. Mas, estava a dizer, sentei-me a ouvir o que diziam. Chegou a hora de almoço, estava a chover e na ausência do chapéu-de-chuva e do meu cartão multibanco, não tive alternativa senão ficar a almoçar no refeitório da faculdade. Os cinco euros que tinha comigo pagaram-me o almoço e uma garrafa de água e ainda um café. Nada mau. Almocei sozinha, a tentar dar resposta aos sms que me enviaram durante a manhã. Mensagens muito bonitas de pessoas que se lembraram de mim no meu dia de anos. Essa hora de pausa deu para pensar. Como estava sozinha apesar de cercada de pessoas por todos os lados, cheguei à conclusão – e é agora que vou fazer o tal comentário que referi no início – que as pessoas, na verdade, as amigas que me haviam enviado todas aquelas mensagens, umas a chamarem-me «princesa Rita», outras a desejarem que aquele dia «se repetisse por muitos e muitos anos», outras a dizerem que se lembraram de mim e que me enviavam beijos – dei por mim a pensar que se morresse (porque os aniversários estão intimamente associados à morte, eles são o princípio dela) aquelas seriam as pessoas convidadas para o meu funeral. Foi assim mesmo, mas saliento que este pensamento não era desagradável. Nada disso. Pelo contrário, eram mesmo aquelas pessoas que eu quereria que estivessem no momento da minha partida.
sexta-feira, 14 de novembro de 2008
conversa com amigas
Hoje estive com as minhas lindas amigas. São lindas e corajosas. Falámos pouco porque os deveres não nos deixaram mais tempo, mas foi tão bom vê-las e ouvi-las que vou guardar aquele momento. Pessoas como elas há poucas. E a propósito da conversa que tivemos deixo aqui uma citação que explica o que não conseguimos concluir durante os minutos que estivemos juntas. Disse Flaubert: «To be stupid, selfish, and have good health are three requirements for happiness, though if stupidity is lacking, all is lost.» Até à próxima minhas lindas!
Rita
Rita
terça-feira, 11 de novembro de 2008
aumento o som até deixar de pensar
No começo do dia, ouço o despertador, as notícias, os sons das máquinas, ouço o toque do telemóvel, olho para a agenda, para os livros, para as contas a pagar, para os compromissos e deveres e fecho-me. Será possível fazer de outro modo? Reagir de qualquer outra maneira? Acho que não. Somos demasiado frágeis para conseguir absorver tudo isto com facilidade. Então, vou para o campo, para a aldeia, onde nada acontece, enterrar a minha cabeça e tentar deixar de ouvir os compromissos, as contas, as notícias. Mas regresso. Tenho de regressar. E vou continuando a jogar o jogo. Interminável e inesgotável. Alinho, vou continuando até ao dia em que puder deixar tudo para trás. Para ajudar, ponho um cd a tocar, bebo um café e coloco o som no máximo até conseguir deixar de pensar. É uma estratégia. Na maioria das vezes funciona. Faz-me sentir ainda mais adolescente. Com o som no máximo, deixo de ouvir as máquinas, o telemóvel, a agenda, o computador, as pessoas. Fico melhor. Fico como se estivesse num aquário de música.
Obrigada música.
Tua Rita
Obrigada música.
Tua Rita
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