segunda-feira, 9 de março de 2009
mais longe
Consciência. Olhar. Dor. Beleza. Eu posso viver tudo isto exactamente no mesmo espaço e tempo em que, a trezentos kms de mim, está alguém que eu amo mais do que todos adormecido artificialmente e que, por algumas horas, não vive como eu vivo. Está algures noutro sítio: a dormir porque assim a colocaram. Estará naquele sono em que não se pensa nada, em que tudo é branco e não se sonha. Está noutra dimensão: longe de mim e até longe dela mesma. Vou esperar ansiosamente que regresse para mim. Até já, mãe.
terça-feira, 3 de março de 2009
acordei a pensar nisto...
Curiosamente, a perfeição partilha algo com a crueldade: ambas se revelam nos pormenores.
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coincidências tristes
segunda-feira, 2 de março de 2009
a língua portuguesa e o algarve
«Razões afins levarão um dia a que, no algarve, como alguém terá o cuidado de escrever, toda a praia que se preze, não é praia mas é beach, qualquer pescador fisherman, tanto faz prezar-se como não, e se de aldeamentos turísticos, em vez de aldeias, se trata, fiquemos sabendo que é mais aceite dizer-se holiday's village, ou village de vacances, ou ferienorte. Chega-se ao cúmulo de não haver nome para loja de modas, porque ela é, numa espécie de português por adopção, boutique, e, necessariamente, fashion shop em inglês, menos necessariamente modes em francês, e francamente modegeschäft em alemão. Uma sapataria apresenta-se como shoes, e não se fala mais nisso. E se o viajante pudesse catar, como quem cata piolhos, nomes de bares e buates, quando chegasse a sines ainda iria nas primeiras letras do alfabeto. Tão desprezado este na lusitana arrumação que do algarve se pode dizer, nestas épocas em que descem os civilizados à barbárie, ser ele a terra do português tal qual se cala.»
Saramago (2008). A Viagem do Elefante: 233-4.
Saramago (2008). A Viagem do Elefante: 233-4.
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morre (parte II),
uma língua que não se defende
leitura recente
[...] porque a vida ri-se das previsões e põe palavras onde imaginámos silêncios, e súbitos regressos quando pensámos que não voltaríamos a encontrar-nos.
Saramago (2008). A Viagem do Elefante: 34.
Saramago (2008). A Viagem do Elefante: 34.
sexta-feira, 16 de janeiro de 2009
sou muito mais feliz sem telefone
Não entendo e não consigo viver ao ritmo imposto pelos telefones a quem circula no início do século XXI, como é o meu caso e provavelmente o vosso também.
Dizem-me constantemente (procuram mesmo convencer-me) que deveria ter telefone em casa: NÃO QUERO!
Os argumentos com os quais intentam persuadir-me a ter tal invasor em minha casa são vários: a) estarei sempre contactável; b) poderão contactar-me sempre que precisarem; c) é mais barato do que o telemóvel; d) é muito cómodo, e), f) e continuam e continuam.
Pois para mim não serve: o dia em que desliguei o telefone (há já mais de ano) foi o dia em que dei mais um passo na minha liberdade. Sim, porque associar a presença dos telefones, nomeadamente daqueles que são portáteis, à liberdade é uma falácia das maiores. Ninguém é livre com um aparelho que a segue a toda a hora e se por um acaso não o atendemos quando nos tentam contactar, zangam-se connosco e dizem num tom agressivo e perplexo: «telefonei-te hoje de manhã, mas não atendeste!!!». Esta perseguição é horrível e é verdade: estou e sou muito mais feliz sem telefone.
Infelizmente não consegui ainda livrar-me do telemóvel: aquele de quem se diz que nos dá ainda mais liberdade do que os outros (os fixos), mas para mim é o oposto: é como se ele fosse o meu carcereiro - alguém que observa e monitoriza cada um dos meus passos, alguém que não me deixa em paz quando eu decido ignorá-lo, alguém que chega mesmo a penalizar-me por eu não corresponder ao que é esperado, ou seja, estar disponível e contactável a todos os segundos, a todos os minutos, a todas as horas, a todos os dias, a todos os momentos do ano.
Antes dos telemóveis, quem falava sozinho na rua era considerado louco, hoje em dia, é apenas mais um a falar ao telefone.
Antes dos telemóveis, utilizávamos as cabines telefónicas (para as quais hoje se olha como se de dinossauros se tratassem) e fechávamos as suas portas para que não nos ouvissem, tinhamos, aliás, pudor: um pudor que nos permitia preservar a nossa privacidade. Hoje com os telemóveis, todos falam em alto e bom som, sem pudor, sem revervas, e partilham connosco e com o mundo a gripe do filho, o horário de saída do marido, a zanga com a mulher, os desgostos de amor, as doenças miseráveis. Tudo.
Não compreendo este novo mundo e só para concluir, caso ainda não tenham entendido: detesto falar ao telefone e sou muito mais feliz sem telefone. Enviem-me, sim, emails, cartas ou escrevam um comentário neste meu cibermundo.
Dizem-me constantemente (procuram mesmo convencer-me) que deveria ter telefone em casa: NÃO QUERO!
Os argumentos com os quais intentam persuadir-me a ter tal invasor em minha casa são vários: a) estarei sempre contactável; b) poderão contactar-me sempre que precisarem; c) é mais barato do que o telemóvel; d) é muito cómodo, e), f) e continuam e continuam.
Pois para mim não serve: o dia em que desliguei o telefone (há já mais de ano) foi o dia em que dei mais um passo na minha liberdade. Sim, porque associar a presença dos telefones, nomeadamente daqueles que são portáteis, à liberdade é uma falácia das maiores. Ninguém é livre com um aparelho que a segue a toda a hora e se por um acaso não o atendemos quando nos tentam contactar, zangam-se connosco e dizem num tom agressivo e perplexo: «telefonei-te hoje de manhã, mas não atendeste!!!». Esta perseguição é horrível e é verdade: estou e sou muito mais feliz sem telefone.
Infelizmente não consegui ainda livrar-me do telemóvel: aquele de quem se diz que nos dá ainda mais liberdade do que os outros (os fixos), mas para mim é o oposto: é como se ele fosse o meu carcereiro - alguém que observa e monitoriza cada um dos meus passos, alguém que não me deixa em paz quando eu decido ignorá-lo, alguém que chega mesmo a penalizar-me por eu não corresponder ao que é esperado, ou seja, estar disponível e contactável a todos os segundos, a todos os minutos, a todas as horas, a todos os dias, a todos os momentos do ano.
Antes dos telemóveis, quem falava sozinho na rua era considerado louco, hoje em dia, é apenas mais um a falar ao telefone.
Antes dos telemóveis, utilizávamos as cabines telefónicas (para as quais hoje se olha como se de dinossauros se tratassem) e fechávamos as suas portas para que não nos ouvissem, tinhamos, aliás, pudor: um pudor que nos permitia preservar a nossa privacidade. Hoje com os telemóveis, todos falam em alto e bom som, sem pudor, sem revervas, e partilham connosco e com o mundo a gripe do filho, o horário de saída do marido, a zanga com a mulher, os desgostos de amor, as doenças miseráveis. Tudo.
Não compreendo este novo mundo e só para concluir, caso ainda não tenham entendido: detesto falar ao telefone e sou muito mais feliz sem telefone. Enviem-me, sim, emails, cartas ou escrevam um comentário neste meu cibermundo.
casa
sábado, 20 de dezembro de 2008
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