sábado, 25 de abril de 2009

A experiência da doença (crónica)


Ultimamente, como alguns já sabem, ando a estudar a experiência da leitura literária e por essa razão comecei também a pensar na experiência da doença. Se a primeira é uma batalha para descrever, a segunda não o é em menor grau.
No entanto, decidi aplicar algum esforço e vou tentar descrevê-la, já que nem preciso de aplicar um inquérito por questionário, nem fazer a revisão da literatura, como é necessário para analisar, academicamente, a experiência da leitura literária. Digamos que a descrição da experiência da doença que a seguir se apresenta é o resultado de uma investigação assumidamente subjectiva com todos os defeitos e qualidades que certamente advêm da natureza deste tipo de pesquisa...

A EXPERIÊNCIA DA DOENÇA

É frequente ouvir quem esteve doente dizer que a seguir a essa fase, fica mais atento aos pormenores, dá mais valor à vida e aprecia a beleza de tudo o que o/a rodeia. Entendo, mas não posso concordar em absoluto.

Entendo porque na maioria dos casos, as pessoas ficam bem depois de terem estado mal e, quando aquilo que é pontual acaba, e a vida recomeça, é mesmo isso que parece ser possível sentir-se: avança-se e o episódio negro da doença fica para trás. Mas tal como disse, não concordo, porque no caso da doença crónica, por exemplo, não há nenhuma revelação - ao estilo de uma epifania - do valor e da beleza da vida; ficando apenas o sentimento de medo: de medo que as dores e a doença nos ataquem mais uma vez e que da próxima vez já não consigamos rejuvenescer com a mesma agilidade e força.

Na experiência da doença, o valor e a beleza da vida ficam simultaneamente ampliados e reduzidos. Ampliam-se quando finalmente podemos calcar o chão com mais vigor, falar com mais energia, passear fora de portas, mas reduzem-se porque a doença quando é crónica não nos deixa apreciar plenamente - mesmo quando estamos menos doentes - os pormenores mais gentis da vida. Claro que há sempre a esperança, mas também há a certeza que a doença é uma crueldade, uma indignidade e uma injustiça.

Compreende-se que quem fica doente aos 60 e recupera, consiga (finalmente) apreciar aquilo que chamam de beleza da vida, mas quem fica doente crónico aos 25 e não morre, fica sempre doente. É quase como estar na praia num dia lindo de Verão e não poder saborear a liberdade e o prazer de um mergulho no mar, onde o corpo se liberta, flutua e não tem peso. Quando a vida (apelidada por alguns como bela) oferece uma doença crónica a uma pessoa que está na flor da idade (sempre achei esta expressão curiosa), vive-se num limbo entre a esperança de melhorar e o pavor de piorar.Para além do mais, a experiência da doença crónica traz uma solidão impenetrável e por vezes envergonhada. Por isso a vida não consegue ser um sonho belo e a praia fica seca, sem azul, sem peixes e sem dourado.

Mais haverá para dizer sobre esta experiência que é também um trabalho sempre em contrução (tipo as obras de Santa Engrácia - outra expressão curiosa): fica a esperança que o consiga fazer por mais algum tempo.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

carta a uma filha

Querida filha,

Escrevo-te hoje, na véspera do dia em que te casarás, para te dizer aquilo que sinto. Estou em casa, naquela que é ainda hoje a tua casa, mas que a partir de amanhã será apenas a casa dos teus pais. A casa está fria e cada vez maior. Quando quase todos à minha volta se queixam de como as suas casas estão cada vez mais pequenas, que nelas já não cabe nem mais um alfinete, na minha (na ainda nossa) casa, é o contrário. Nem mesmo todos os livros do mundo a conseguem encher nem a tornam quente como ela já foi em tempos. Aqui no meio da cidade, tão longe do sítio onde nasci, é cada vez mais difícil respirar, por isso fico em casa, no quarto, naquele quarto que já foi o da tua irmã e que agora é um escritório cheio de papelada e um computador. No entanto, é aqui que me sinto bem; aqui ainda consigo pensar mesmo quando o comboio passa e a gatinha mia forte em jeito de resposta ao longo assobio que nasce na estação lá em baixo. É neste quarto, hoje espaço de arquivo de papéis e de emoções, que faço a despedida de ti. Tem de ser uma despedida lenta que vá crescendo em mim e que eu vou aos poucos dominando. Isto porque, como sabes, detesto despedidas. Provavelmente uma reacção consciente ao dia em que os meus pais foram para Angola e me deixaram ao cuidado da tia, daquela tia que vivia na outra margem. Eles foram e eu fiquei. Tal como tu te vais embora amanhã e eu fico. Lembro-me desse dia como se fosse hoje. Ainda nem estava na escola, ainda nem sabia o alfabeto, mas já um turbilhão de palavras me ocupava a cabeça. Claro que eram palavras de menina, palavras que se alinhavam aos trambolhões na minha cabeça como os puzzles que eu tentava fazer no chão da loja dos avós - «por que se vão embora? Por que não posso ir com vocês? Por que não me levas contigo, mãe? Por que tenho de ficar aqui?» onde à mesa estou proibida de falar e conversar como eu sempre gostei. Eu sempre gostei de conversar e como sabes converso por tudo e por nada, foi com o meu pai que aprendi a fazê-lo. Foi o teu avô quem mo ensinou, no dia em que a minha mãe me pôs de castigo, fechada no quarto da costura, por eu ter partido a terrina da sopa, com a sopa ainda lá dentro. Certamente já ouviste esta história centenas de vezes, mas foi mesmo nesse dia que eu aprendi, sem o saber, claro, o que era a imaginação e a força de dar voltas à vida quando a vida no-las troca. Conseguindo enganar a minha mãe, o meu pai passou aquela tarde comigo, também de castigo, pensava eu, sem perceber porquê, a contar-me histórias: histórias de quando era menino e ia de bicicleta à ribeira nos dias quentes de Verão, histórias de quando acordava de madrugada para ir à padaria do irmão sentir o cheiro do pão quente acabadinho de fazer, histórias e mais histórias. Foi nesse dia que percebi o poder libertador das palavras pois à medida que da boca do meu pai saiam palavras e palavras, as paredes daquele quarto de costura destruíam-se e eu voava dali para fora. Com aquelas palavras, vieram outras e nasceu a minha paixão por tudo aquilo que é composto por palavras: as conversas, as vidas, as memórias e as histórias. Amanhã, quando casares, abres mais um caminho mas, se quiseres e me deixares, eu estarei sempre lá, pronta para conversar quando precisares de mim. Sei que não gostas de telefones por isso te escrevo hoje, mas fica com a certeza que com fios ou sem fios, as tuas palavras (e o teu mundo) farão sempre parte das minhas palavras e do meu mundo.
Mãe

terça-feira, 31 de março de 2009

a idade

a idade é relativa. até aqui nada de novo. para além do mais, a relatividade é das respostas mais fáceis que se pode dar às coisas que nos intrigam. tipo: a felicidade? é relativa; o que é o amor? bem, é relativo. ou seja, às vezes, quando não se sabe o que se dizer, diz-se que é relativo e de um modo geral o outro fica a olhar para nós meio atordoado mas no fundo a concordar que de facto tudo (ou quase tudo) é relativo. mas há coisas e sentimentos para os quais não é possível dar esta resposta vaga e ao mesmo tempo tão peremptória. quando se é jovem, muito jovem, digamos, quando se tem 24 anos, não é relativo ficarmos velhos de um momento para o outro. é um peso que nada tem a ver com relatividade: é um facto indesmentível. não é relativo, é um peso (pesado) ser-se jovem e ter uma doença de velhos que nos faz inevitavelmente viver e logo pensar como velhos. ter uma doença de velhos quando se é jovem, faz olhar a vida e vivê-la de modo muito diferente do que ser jovem e não ter uma doença de velhos. parece uma verdade do mr. jacques de la palisse (ou de la palice, é relativo), mas é acima de tudo um sentimento com o qual se aprende a conviver. e nessa convivência nada há de relativo no sentido em que não há limitações ao sentido desse sentimento. ele é verdadeiro e irrefutável.

segunda-feira, 9 de março de 2009

mais longe

Consciência. Olhar. Dor. Beleza. Eu posso viver tudo isto exactamente no mesmo espaço e tempo em que, a trezentos kms de mim, está alguém que eu amo mais do que todos adormecido artificialmente e que, por algumas horas, não vive como eu vivo. Está algures noutro sítio: a dormir porque assim a colocaram. Estará naquele sono em que não se pensa nada, em que tudo é branco e não se sonha. Está noutra dimensão: longe de mim e até longe dela mesma. Vou esperar ansiosamente que regresse para mim. Até já, mãe.

terça-feira, 3 de março de 2009

acordei a pensar nisto...

Curiosamente, a perfeição partilha algo com a crueldade: ambas se revelam nos pormenores.

segunda-feira, 2 de março de 2009

a língua portuguesa e o algarve

«Razões afins levarão um dia a que, no algarve, como alguém terá o cuidado de escrever, toda a praia que se preze, não é praia mas é beach, qualquer pescador fisherman, tanto faz prezar-se como não, e se de aldeamentos turísticos, em vez de aldeias, se trata, fiquemos sabendo que é mais aceite dizer-se holiday's village, ou village de vacances, ou ferienorte. Chega-se ao cúmulo de não haver nome para loja de modas, porque ela é, numa espécie de português por adopção, boutique, e, necessariamente, fashion shop em inglês, menos necessariamente modes em francês, e francamente modegeschäft em alemão. Uma sapataria apresenta-se como shoes, e não se fala mais nisso. E se o viajante pudesse catar, como quem cata piolhos, nomes de bares e buates, quando chegasse a sines ainda iria nas primeiras letras do alfabeto. Tão desprezado este na lusitana arrumação que do algarve se pode dizer, nestas épocas em que descem os civilizados à barbárie, ser ele a terra do português tal qual se cala.»
Saramago (2008). A Viagem do Elefante: 233-4.

leitura recente

[...] porque a vida ri-se das previsões e põe palavras onde imaginámos silêncios, e súbitos regressos quando pensámos que não voltaríamos a encontrar-nos.

Saramago (2008). A Viagem do Elefante: 34.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

sou muito mais feliz sem telefone

Não entendo e não consigo viver ao ritmo imposto pelos telefones a quem circula no início do século XXI, como é o meu caso e provavelmente o vosso também.
Dizem-me constantemente (procuram mesmo convencer-me) que deveria ter telefone em casa: NÃO QUERO!
Os argumentos com os quais intentam persuadir-me a ter tal invasor em minha casa são vários: a) estarei sempre contactável; b) poderão contactar-me sempre que precisarem; c) é mais barato do que o telemóvel; d) é muito cómodo, e), f) e continuam e continuam.
Pois para mim não serve: o dia em que desliguei o telefone (há já mais de ano) foi o dia em que dei mais um passo na minha liberdade. Sim, porque associar a presença dos telefones, nomeadamente daqueles que são portáteis, à liberdade é uma falácia das maiores. Ninguém é livre com um aparelho que a segue a toda a hora e se por um acaso não o atendemos quando nos tentam contactar, zangam-se connosco e dizem num tom agressivo e perplexo: «telefonei-te hoje de manhã, mas não atendeste!!!». Esta perseguição é horrível e é verdade: estou e sou muito mais feliz sem telefone.
Infelizmente não consegui ainda livrar-me do telemóvel: aquele de quem se diz que nos dá ainda mais liberdade do que os outros (os fixos), mas para mim é o oposto: é como se ele fosse o meu carcereiro - alguém que observa e monitoriza cada um dos meus passos, alguém que não me deixa em paz quando eu decido ignorá-lo, alguém que chega mesmo a penalizar-me por eu não corresponder ao que é esperado, ou seja, estar disponível e contactável a todos os segundos, a todos os minutos, a todas as horas, a todos os dias, a todos os momentos do ano.
Antes dos telemóveis, quem falava sozinho na rua era considerado louco, hoje em dia, é apenas mais um a falar ao telefone.
Antes dos telemóveis, utilizávamos as cabines telefónicas (para as quais hoje se olha como se de dinossauros se tratassem) e fechávamos as suas portas para que não nos ouvissem, tinhamos, aliás, pudor: um pudor que nos permitia preservar a nossa privacidade. Hoje com os telemóveis, todos falam em alto e bom som, sem pudor, sem revervas, e partilham connosco e com o mundo a gripe do filho, o horário de saída do marido, a zanga com a mulher, os desgostos de amor, as doenças miseráveis. Tudo.
Não compreendo este novo mundo e só para concluir, caso ainda não tenham entendido: detesto falar ao telefone e sou muito mais feliz sem telefone. Enviem-me, sim, emails, cartas ou escrevam um comentário neste meu cibermundo.

casa



Como disse V.S. Naipaul, prémio Nóbel da Literatura em 2001, «casa» é o lugar onde o nosso gato está. Concordo totalmente.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

oferenda

Ainda a propósito do meu aniversário, ofereceram-me um cd que não conhecia mas pelo qual depressa me apaixonei: «No Longer at Ease» da Nneka. A oferenda veio da minha amiga S.V. - com quem estou pontualmente mas com quem partilho momentos intensos de amizade e sinceridade - talvez seja mesmo pelo facto de a ver poucas vezes que quando estamos juntas partilhamos em torrente as emoções que nos assolam naqueles e noutros momentos. A S.V. é especial por ser como é e por me dar a oportunidade de eu ser como sou quando estou com ela: frágil e desarmada.
Fica aqui o meu poema favorito deste cd:

GYPSY

Is it the past that stops me from growing
A wish to change yesterday though
I know it is future damaging
Slowly recognising life cannot stay the same
Wish beautiful moments can remain
I pray and don't lose the track that God makes me run
Cos without you, without the light, there is no sun
Oh but what is it that we have?
Still we have not arrived, still fall apart and still I ask...

Will I wonder 4 the rest of my life
Will I break free from my imprisoned minds
But still we're Gypsies 4 the rest of our lives
And will we ever break free and free your minds

Got to maintain our peace of mind
What to do is to keep it steady, keep it focussed
People come, people go, friends become enemies
Today they love you and tomorrow they forget
Some may speak out your secrets, your desire
and at the same time they want you to suck your power
They smile at you, they give you kisses
and the same time backstab you and give you

Will u recognise ur soul is naked before u
Will u hide your own sin when u know the truth
Will u drown in your own tears and self distruct
Will u break the rules and be concerned

No but will we wonder for the rest of our lives
Will we break free from our imprisoned minds
Cos we're still Gypsies for the rest of our lives
"forever searching"
Let's break free and free our minds.

Obrigada S. pelos momentos que esta e outras músicas me ofereceram enquanto o B. ouvia e via mais um jogo de futebol!
The stupid neither forgive nor forget; the naive forgive and forget; the wise forgive but do not forget.
- Thomas Szasz

domingo, 14 de dezembro de 2008

eu já suspeitava que havia quem concordasse comigo...

«It has been my experience that folks who have no vices have very few virtues.»
Abraham Lincoln

a busca da felicidade que nos faz sentir ainda mais infelizes

A falta de sorte e a felicidade

Há quem processe a informação da sua vida em voz alta e há quem o faça em silêncio. Eu pertenço ao último grupo. Sempre pertenci. Eis uma das razões pela qual talvez não escreva tão frequentemente neste blogue: porque escrever aqui é como processar a informação em voz alta.
A razão pela qual não o faço já a expliquei num dos posts anteriores mas, acima de tudo, tem a ver com um certo pudor em partilhar tudo o que se passa dentro da minha cabeça. Pontualmente, lá o ultrapasso e escrevo ou falo com alguém. Todavia, o resultado nem sempre é o esperado. Se estamos numa maré de pouca sorte, por exemplo, quando contamos o primeiro contratempo a alguém, é frequente recebermos umas palavras de simpatia e reconforto. Quando contamos o terceiro e o quarto contratempos já se fica com a sensação de que a pessoa que nos ouve acha que somos nós quem atrai o azar e/ou que está com pouca paciência para nos ouvir. E possivelmente tem razão. A sorte tal como o azar vai e vem. E quando o segundo se instala o melhor é ficarmos silenciosamente à espera que passe. O mesmo sucede quando se fica doente. Há dias falei com uma colega que está doente há três anos. Nos primeiros meses, foram vários os telefonemas que recebeu para saber como estava, mas ao final de alguns meses eram raríssimos os contactos do exterior para saber como se sentia ou como reagia aos tratamentos. O ser humano é assim. Não gosta de estar perto de quem está numa maré de azar. Será esse um dos defeitos da humanidade ou apenas uma característica? Se for defeito, é terrível e uma demonstração monstruosa de egoísmo. Se for característica, pode-se interpretá-la como sendo a única forma que nós temos para ser felizes. Todos (ou quase todos) vivemos em perseguição da felicidade e momentos e pessoas que não são ou não estão felizes lembram-nos de que aquilo que perseguimos, na realidade, não existe; e isso desanima qualquer um, não é assim? Como tal, é mais fácil ignorar a infelicidade dos outros e fingir que vamos sendo felizes na perseguição inútil e infrutífera da nossa felicidade eterna. Na realidade, a felicidade não é possível e fazer disso uma missão de vida é tornar-se cada vez mais egoísta.

domingo, 7 de dezembro de 2008


Esta foi uma das mensagens que me enviaram no dia do meu 38º aniversário e à qual eu respondo com: OBRIGADA linda amiga!
Porque gosto muito das diferentes "texturas" que compõem a pessoa tão especial que és;
Porque combinas a fragilidade e beleza desta rosa e a robustez e fiabilidade deste tronco;
Obrigada pela tua amizade e os votos de um dia muito feliz!
Beijinhos,
C.

o meu 38º aniversário

Fiz anos há pouco tempo e foram tantas as coisas que me passaram pela cabeça. Apesar da tonalidade mórbida que um comentário como aquele que vou fazer pode adquirir, acho que ele deve resultar de um pensamento recorrente quando se faz anos. Em primeiro lugar, é necessário lembrar que acordei às 5 da manhã no dia do meu aniversário, entrei no carro – estava imenso frio – e fui para Lisboa com o meu marido e amigo Bruno que às 9 e pouco da manhã me deixou à porta da Nova onde eu ia assistir a uma conferência internacional (o adjectivo é aqui importante para ilustrar o contexto onde me coloquei nessa manhã do meu 38º aniversário). Cheguei já atrasada, por isso quando entrei no anfiteatro já estava tudo sentadinho a ouvir um professor do King’s College. Entrei o mais silenciosamente possível, enviei um sorriso ao meu professor que estava sentado ao lado do conferencista e ali fiquei. Chegada a altura da pausa para café, estava sozinha no meio de muita gente que conversava entre si ou para si. Tudo bem. Olhei. Vi as caras e tentei descortinar estados de espírito talvez porque eu mesma estava a tentar perceber o meu. No dia seguinte, aquelas pessoas iam ser a minha plateia quando eu fosse fazer a minha comunicação e antes que eles me vissem, eu queria vê-los (a eles e a elas). Terminada a pausa para café, regressei ao anfiteatro – o mesmo onde defendi a minha tese de mestrado e que naquela sexta-feira, 28 de Novembro de 2008, me pareceu velho e a precisar de umas boas camadas de tinta. Mas, estava a dizer, sentei-me a ouvir o que diziam. Chegou a hora de almoço, estava a chover e na ausência do chapéu-de-chuva e do meu cartão multibanco, não tive alternativa senão ficar a almoçar no refeitório da faculdade. Os cinco euros que tinha comigo pagaram-me o almoço e uma garrafa de água e ainda um café. Nada mau. Almocei sozinha, a tentar dar resposta aos sms que me enviaram durante a manhã. Mensagens muito bonitas de pessoas que se lembraram de mim no meu dia de anos. Essa hora de pausa deu para pensar. Como estava sozinha apesar de cercada de pessoas por todos os lados, cheguei à conclusão – e é agora que vou fazer o tal comentário que referi no início – que as pessoas, na verdade, as amigas que me haviam enviado todas aquelas mensagens, umas a chamarem-me «princesa Rita», outras a desejarem que aquele dia «se repetisse por muitos e muitos anos», outras a dizerem que se lembraram de mim e que me enviavam beijos – dei por mim a pensar que se morresse (porque os aniversários estão intimamente associados à morte, eles são o princípio dela) aquelas seriam as pessoas convidadas para o meu funeral. Foi assim mesmo, mas saliento que este pensamento não era desagradável. Nada disso. Pelo contrário, eram mesmo aquelas pessoas que eu quereria que estivessem no momento da minha partida.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

conversa com amigas

Hoje estive com as minhas lindas amigas. São lindas e corajosas. Falámos pouco porque os deveres não nos deixaram mais tempo, mas foi tão bom vê-las e ouvi-las que vou guardar aquele momento. Pessoas como elas há poucas. E a propósito da conversa que tivemos deixo aqui uma citação que explica o que não conseguimos concluir durante os minutos que estivemos juntas. Disse Flaubert: «To be stupid, selfish, and have good health are three requirements for happiness, though if stupidity is lacking, all is lost.» Até à próxima minhas lindas!
Rita

terça-feira, 11 de novembro de 2008

aumento o som até deixar de pensar

No começo do dia, ouço o despertador, as notícias, os sons das máquinas, ouço o toque do telemóvel, olho para a agenda, para os livros, para as contas a pagar, para os compromissos e deveres e fecho-me. Será possível fazer de outro modo? Reagir de qualquer outra maneira? Acho que não. Somos demasiado frágeis para conseguir absorver tudo isto com facilidade. Então, vou para o campo, para a aldeia, onde nada acontece, enterrar a minha cabeça e tentar deixar de ouvir os compromissos, as contas, as notícias. Mas regresso. Tenho de regressar. E vou continuando a jogar o jogo. Interminável e inesgotável. Alinho, vou continuando até ao dia em que puder deixar tudo para trás. Para ajudar, ponho um cd a tocar, bebo um café e coloco o som no máximo até conseguir deixar de pensar. É uma estratégia. Na maioria das vezes funciona. Faz-me sentir ainda mais adolescente. Com o som no máximo, deixo de ouvir as máquinas, o telemóvel, a agenda, o computador, as pessoas. Fico melhor. Fico como se estivesse num aquário de música.
Obrigada música.
Tua Rita

terça-feira, 21 de outubro de 2008

de regresso

estou de regresso. pelo menos intermitentemente. não faço promessas pois todos nós sabemos que elas foram feitas para serem quebradas, daí que dê mais valor à verdade de assumir a inconstância deste blogue. durante este verão pensei neste espaço e houve ocasiões em que me apeteceu escrever. só que limitei-me a escrever na minha cabeça. é verdade: escrevi textos belíssimos só que nunca os passei para o ecrã. eram textos lindos, bem escritos e de grande valor existencial. nem imaginam, a qualidade. na realidade, foi do melhor que escrevi até hoje...só foi pena, dirão vocês, não os ter concretizado nas teclas do pc. mas agora a palavra «regresso» aplica-se. após a pausa maravilhosa do mês de agosto, marraquesh foi lindo, recuperei algumas energias e agora é trabalho a todo o vapor. para além das aulas aeróbicas de três horas cada uma, existe uma coisa chamada «tese». a tese não é fácil mas é sem dúvida uma chance para a descoberta. é uma descoberta não só daquilo que estou a aprender sobre o tema mas é acima de tudo uma oportunidade de descoberta (mais uma vez) de quem sou e de quem caminho para ser. escrever um texto daquela dimensão desperta o melhor e o pior em mim. o melhor: desenvolve a minha capacidade de divagação perante o ecrã do computador, a minha enorme e imparável capacidade de imaginação que me permite transportar-me para outros sítios quando estou sentada à frente do computador, a minha capacidade de dormir à tarde, de manhã, ao princípio da tarde, ao final da tarde, a minha capacidade de comer chocolate quase todos os dias, a minha capacidade de cumprir os deveres burocráticos impostos pela vida em sociedade, isto é, coloco à frente da tese a ida às finanças, aos correios, ao centro de saúde actualizar o meu cartão que ainda estava com a morada antiga, à edp pagar contas, enfim, um mundo de tarefas burocráticas que parecem uma delícia em comparação à feitura da tese e cuja realização só é possível graças à tese - tudo isto foram descobertas fantásticas que só a realização de uma tese me poderia oferecer. estou mesmo a pensar em colocar tudo isto na secção agradecimentos do volume a que chamarei tese em estudos anglo-portugueses. tenho a certeza de que o juri compreenderá. Sobre o pior que a tese veio descobrir em mim: afinal, descobri eu, sou cumpridora e por essa razão sofro quando não cumpro; sou responsável e por essa razão sofro quando quando não escrevo pelo menos duas páginas de tese por dia; sou estável e por essa razão persisto contínua e frequentemente a não escrever regularmente a tese. não diriam que é fantático? afinal uma tese é uma oportunidade única de acesso ao nosso mundo, uma porta que nunca abririamos se a tese não tivesse de ser feita. beijos