quarta-feira, 8 de abril de 2009

carta a uma filha

Querida filha,

Escrevo-te hoje, na véspera do dia em que te casarás, para te dizer aquilo que sinto. Estou em casa, naquela que é ainda hoje a tua casa, mas que a partir de amanhã será apenas a casa dos teus pais. A casa está fria e cada vez maior. Quando quase todos à minha volta se queixam de como as suas casas estão cada vez mais pequenas, que nelas já não cabe nem mais um alfinete, na minha (na ainda nossa) casa, é o contrário. Nem mesmo todos os livros do mundo a conseguem encher nem a tornam quente como ela já foi em tempos. Aqui no meio da cidade, tão longe do sítio onde nasci, é cada vez mais difícil respirar, por isso fico em casa, no quarto, naquele quarto que já foi o da tua irmã e que agora é um escritório cheio de papelada e um computador. No entanto, é aqui que me sinto bem; aqui ainda consigo pensar mesmo quando o comboio passa e a gatinha mia forte em jeito de resposta ao longo assobio que nasce na estação lá em baixo. É neste quarto, hoje espaço de arquivo de papéis e de emoções, que faço a despedida de ti. Tem de ser uma despedida lenta que vá crescendo em mim e que eu vou aos poucos dominando. Isto porque, como sabes, detesto despedidas. Provavelmente uma reacção consciente ao dia em que os meus pais foram para Angola e me deixaram ao cuidado da tia, daquela tia que vivia na outra margem. Eles foram e eu fiquei. Tal como tu te vais embora amanhã e eu fico. Lembro-me desse dia como se fosse hoje. Ainda nem estava na escola, ainda nem sabia o alfabeto, mas já um turbilhão de palavras me ocupava a cabeça. Claro que eram palavras de menina, palavras que se alinhavam aos trambolhões na minha cabeça como os puzzles que eu tentava fazer no chão da loja dos avós - «por que se vão embora? Por que não posso ir com vocês? Por que não me levas contigo, mãe? Por que tenho de ficar aqui?» onde à mesa estou proibida de falar e conversar como eu sempre gostei. Eu sempre gostei de conversar e como sabes converso por tudo e por nada, foi com o meu pai que aprendi a fazê-lo. Foi o teu avô quem mo ensinou, no dia em que a minha mãe me pôs de castigo, fechada no quarto da costura, por eu ter partido a terrina da sopa, com a sopa ainda lá dentro. Certamente já ouviste esta história centenas de vezes, mas foi mesmo nesse dia que eu aprendi, sem o saber, claro, o que era a imaginação e a força de dar voltas à vida quando a vida no-las troca. Conseguindo enganar a minha mãe, o meu pai passou aquela tarde comigo, também de castigo, pensava eu, sem perceber porquê, a contar-me histórias: histórias de quando era menino e ia de bicicleta à ribeira nos dias quentes de Verão, histórias de quando acordava de madrugada para ir à padaria do irmão sentir o cheiro do pão quente acabadinho de fazer, histórias e mais histórias. Foi nesse dia que percebi o poder libertador das palavras pois à medida que da boca do meu pai saiam palavras e palavras, as paredes daquele quarto de costura destruíam-se e eu voava dali para fora. Com aquelas palavras, vieram outras e nasceu a minha paixão por tudo aquilo que é composto por palavras: as conversas, as vidas, as memórias e as histórias. Amanhã, quando casares, abres mais um caminho mas, se quiseres e me deixares, eu estarei sempre lá, pronta para conversar quando precisares de mim. Sei que não gostas de telefones por isso te escrevo hoje, mas fica com a certeza que com fios ou sem fios, as tuas palavras (e o teu mundo) farão sempre parte das minhas palavras e do meu mundo.
Mãe

terça-feira, 31 de março de 2009

a idade

a idade é relativa. até aqui nada de novo. para além do mais, a relatividade é das respostas mais fáceis que se pode dar às coisas que nos intrigam. tipo: a felicidade? é relativa; o que é o amor? bem, é relativo. ou seja, às vezes, quando não se sabe o que se dizer, diz-se que é relativo e de um modo geral o outro fica a olhar para nós meio atordoado mas no fundo a concordar que de facto tudo (ou quase tudo) é relativo. mas há coisas e sentimentos para os quais não é possível dar esta resposta vaga e ao mesmo tempo tão peremptória. quando se é jovem, muito jovem, digamos, quando se tem 24 anos, não é relativo ficarmos velhos de um momento para o outro. é um peso que nada tem a ver com relatividade: é um facto indesmentível. não é relativo, é um peso (pesado) ser-se jovem e ter uma doença de velhos que nos faz inevitavelmente viver e logo pensar como velhos. ter uma doença de velhos quando se é jovem, faz olhar a vida e vivê-la de modo muito diferente do que ser jovem e não ter uma doença de velhos. parece uma verdade do mr. jacques de la palisse (ou de la palice, é relativo), mas é acima de tudo um sentimento com o qual se aprende a conviver. e nessa convivência nada há de relativo no sentido em que não há limitações ao sentido desse sentimento. ele é verdadeiro e irrefutável.

segunda-feira, 9 de março de 2009

mais longe

Consciência. Olhar. Dor. Beleza. Eu posso viver tudo isto exactamente no mesmo espaço e tempo em que, a trezentos kms de mim, está alguém que eu amo mais do que todos adormecido artificialmente e que, por algumas horas, não vive como eu vivo. Está algures noutro sítio: a dormir porque assim a colocaram. Estará naquele sono em que não se pensa nada, em que tudo é branco e não se sonha. Está noutra dimensão: longe de mim e até longe dela mesma. Vou esperar ansiosamente que regresse para mim. Até já, mãe.

terça-feira, 3 de março de 2009

acordei a pensar nisto...

Curiosamente, a perfeição partilha algo com a crueldade: ambas se revelam nos pormenores.

segunda-feira, 2 de março de 2009

a língua portuguesa e o algarve

«Razões afins levarão um dia a que, no algarve, como alguém terá o cuidado de escrever, toda a praia que se preze, não é praia mas é beach, qualquer pescador fisherman, tanto faz prezar-se como não, e se de aldeamentos turísticos, em vez de aldeias, se trata, fiquemos sabendo que é mais aceite dizer-se holiday's village, ou village de vacances, ou ferienorte. Chega-se ao cúmulo de não haver nome para loja de modas, porque ela é, numa espécie de português por adopção, boutique, e, necessariamente, fashion shop em inglês, menos necessariamente modes em francês, e francamente modegeschäft em alemão. Uma sapataria apresenta-se como shoes, e não se fala mais nisso. E se o viajante pudesse catar, como quem cata piolhos, nomes de bares e buates, quando chegasse a sines ainda iria nas primeiras letras do alfabeto. Tão desprezado este na lusitana arrumação que do algarve se pode dizer, nestas épocas em que descem os civilizados à barbárie, ser ele a terra do português tal qual se cala.»
Saramago (2008). A Viagem do Elefante: 233-4.

leitura recente

[...] porque a vida ri-se das previsões e põe palavras onde imaginámos silêncios, e súbitos regressos quando pensámos que não voltaríamos a encontrar-nos.

Saramago (2008). A Viagem do Elefante: 34.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

sou muito mais feliz sem telefone

Não entendo e não consigo viver ao ritmo imposto pelos telefones a quem circula no início do século XXI, como é o meu caso e provavelmente o vosso também.
Dizem-me constantemente (procuram mesmo convencer-me) que deveria ter telefone em casa: NÃO QUERO!
Os argumentos com os quais intentam persuadir-me a ter tal invasor em minha casa são vários: a) estarei sempre contactável; b) poderão contactar-me sempre que precisarem; c) é mais barato do que o telemóvel; d) é muito cómodo, e), f) e continuam e continuam.
Pois para mim não serve: o dia em que desliguei o telefone (há já mais de ano) foi o dia em que dei mais um passo na minha liberdade. Sim, porque associar a presença dos telefones, nomeadamente daqueles que são portáteis, à liberdade é uma falácia das maiores. Ninguém é livre com um aparelho que a segue a toda a hora e se por um acaso não o atendemos quando nos tentam contactar, zangam-se connosco e dizem num tom agressivo e perplexo: «telefonei-te hoje de manhã, mas não atendeste!!!». Esta perseguição é horrível e é verdade: estou e sou muito mais feliz sem telefone.
Infelizmente não consegui ainda livrar-me do telemóvel: aquele de quem se diz que nos dá ainda mais liberdade do que os outros (os fixos), mas para mim é o oposto: é como se ele fosse o meu carcereiro - alguém que observa e monitoriza cada um dos meus passos, alguém que não me deixa em paz quando eu decido ignorá-lo, alguém que chega mesmo a penalizar-me por eu não corresponder ao que é esperado, ou seja, estar disponível e contactável a todos os segundos, a todos os minutos, a todas as horas, a todos os dias, a todos os momentos do ano.
Antes dos telemóveis, quem falava sozinho na rua era considerado louco, hoje em dia, é apenas mais um a falar ao telefone.
Antes dos telemóveis, utilizávamos as cabines telefónicas (para as quais hoje se olha como se de dinossauros se tratassem) e fechávamos as suas portas para que não nos ouvissem, tinhamos, aliás, pudor: um pudor que nos permitia preservar a nossa privacidade. Hoje com os telemóveis, todos falam em alto e bom som, sem pudor, sem revervas, e partilham connosco e com o mundo a gripe do filho, o horário de saída do marido, a zanga com a mulher, os desgostos de amor, as doenças miseráveis. Tudo.
Não compreendo este novo mundo e só para concluir, caso ainda não tenham entendido: detesto falar ao telefone e sou muito mais feliz sem telefone. Enviem-me, sim, emails, cartas ou escrevam um comentário neste meu cibermundo.