quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

momento presente

SEPARAÇÃO

(Definição ad-hoc e Aplicação)


I

É a ciência de saber deixar

Ou ser deixado

Depois saber continuar


II

A dor da separação é infinda

Quando aquilo que nos parte

É parte da vida de que

já fazemos parte.

(Ricardo Marques)

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Um texto para a P.

Um fim que não é um fim. Um fim que é um recomeço. O problema maior é que nós mulheres ficamos muito tempo (demasiado) dedicadas ao sofrimento. Se, por um lado, somos mais fortes e corajosas e decididas do que a maioria deles o é, por outro, temos a capacidade de sofrimento ampliada em nós. Amamos muito e sofremos muito. Ilustro o que afirmei com um exemplo: Eles, quando acabam uma relação, passados dois meses (ou mesmo duas horas) já estão noutra, nós passados dois anos ainda temos lá a cicatriz que sangra ainda de vez em quando. É normal. Somos assim. É essa a nossa matéria: temos uma capacidade enorme de amar e ao mesmo tempo uma capacidade enorme de sofrimento. Por essa razão é que as mulheres caem sempre no erro do amor e os homens não - tal como diz valter hugo mãe. Nós caímos sempre no erro do amor porque temos uma capacidade de acreditar do tamanho de um sol. Enorme e brilhante. Nós acreditamos no amor como um caminho para a felicidade, mas por vezes esquecemo-nos que os caminhos para a felicidade são diversos, sempre muitos. Esse não é o único. O caminho para a felicidade é amarmo-nos. O caminho para a felicidade é não esperarmos muito da felicidade. (ups, esta última não é muito optimista, mas na verdade quanto maior é a ânsia pela felicidade menos a felicidade surge no nosso caminho). O caminho para a felicidade é manter a capacidade de seguir em frente mesmo quando não apetece. Mas não é seguir em frente como os burros, é seguir em frente e para cima ao mesmo tempo. O caminho para a felicidade é não ter medo de cair de novo no erro do amor.
Amo-te P.
Para sempre. Podes sempre contar com os meus erros, pois é deles que tiro as lições que modestamente te posso passar, se quiseres.

domingo, 22 de novembro de 2009

a questão

A vida ainda é uma coisa estranha para mim. Ainda não consigo percebê-la bem. Uns dias acho que já tenho tudo percebido, outros ando totalmente às aranhas. Numa tentativa de a entender melhor, escrevi uma lista com as características da vida e saiu isto:
- a vida é curta;
- a vida só faz sentido com amigos;
- a vida é melhor quando ainda temos os nossos pais connosco;
- a vida passa muito rápido;
- a vida é um puzzle complicado e as peças que supostamente deveriam encaixar bem, nem sempre encaixam - daí as dores de alma;
- a vida é má;
- a vida é boa;
- a vida é tudo o que temos;
- a vida é mais bonita quando se está apaixonado;
- a vida é um desafio muitas vezes sem sentido;
- a vida é uma aventura com sentido;
- a vida dá muito trabalho;
- a vida é uma palavra cujo referente é sempre metafórico - nunca é real.

Fiz a lista, mas nem por isso, fiquei mais esclarecida. Há demasiadas contradições. Ainda mais do que aquelas que existem em mim. Mas como eu sou um produto da vida deduzo que as contradições quando chegam até mim já estão duplicadas, triplicadas, quadriplicadas.

Mas a questão fundamental é como é que se pode aprender a viver melhor. Nessa resposta, as alíneas cruzam-se com as anteriores. Assim, para viver melhor:
- temos de estar sempre no pico da paixão (o que se revela impossível, demasiado cansativo e irrealista);
- temos de estar sempre conscientes que a vida é curta para que aproveitemos cada momento como se fosse o último. O problema é que essa atitude só contribui para nos lembrarmos que vamos morrer - que ninguém sai daqui vivo - o que nos deixa bastante deprimidos e ainda mais confusos;
- temos de entender a vida como uma aventura, um desafio: o busílis da questão é que nem sempre estamos dispostos a ser aventureiros e a correr riscos que nos podem levar a desastres emocionais graves, daqueles em que partimos os ossinhos todos da nossa alma.

Como este é um trabalho que só termina no momento em que se saía daqui para fora (para onde saímos é outra das questões tramadas para a qual ainda não tenho, e desconfio que nunca terei, resposta), vou atribuir-me o direito de ir modificando as minhas perguntas e respostas:)

sábado, 10 de outubro de 2009

a minha irmã aos 12 anos

Hoje é um dia especial, descobri, já depois de ter perdido a minha irmã, há catorze anos, um texto que ela escreveu quando tinha 12 anos, em 1986. Decidi partilhá-lo porque ela também sou eu. E eu sou «como um livro aberto».

A GUERRA À PORTA

Eu sou uma rapariga e o meu nome é Marta.

Tenho uma família maravilhosa: minha mãe é uma mulher activa, alegre, trabalhadora, uma mulher extraordinária . Meu pai é muito [sic], é um homem calado, trabalhador, simpático, mas tem uma cara triste. Mas a minha irmã, é uma pessoa que eu adoro, tem um feitio maravilhoso, a sua maneira de pensar é desenvolvida de mais para as suas 15 primaveras.

Bem agora que já contei como era a minha família, vou falar um pouco de mim.

Como vos tinha dito, chamo-me Marta, tenho 12 anos, ando no Ciclo Preparatório.

Tenho muitos amigos, que me ajudam nas alturas difíceis da minha idade ( idade do armário).

Sou uma rapariga pensativa ao máximo. Adoro o convívio entre a juventude e as pessoas de idade.

Acho que as pessoas não podem pensar só nelas, devem pensar também nas crianças a morrer de fome, nos países em que o céu anda cinzento.

Porque nós não sabemos o que estará à nossa frente, o que nos poderá acontecer.

As pessoas devem olhar para a realidade, para o Sol que dará luz até existir, não pensar só na sua felicidade, na esperança e que sempre haverá Paz.

Paz! O que é isto para as pessoas?

Paz, o que esta palavra tão apagada pela linguagem diária das pessoas, o que quer dizer?

Quer dizer amor, darmos as mãos e uni-las com todas as crianças da Terra; é a amizade entre os homens, a justiça, isto tudo é Paz !

Mas onde está a Paz?

Porque não vemos nós Paz em vez de guerra?

Vamos acabar com as bombas, com a raiva entre os homens, com a frieza das pessoas, mais propriamente com a guerra!

Mas, porquê a guerra? Resolve assuntos importante?

Ou será só para matar tantas e tantas pessoas que sem culpa dos outros que as causam, resolvem eles sozinhos os seus problemas.

Porque eles só pensam em guerra, nas bombas, na crueldade, na violência.

É por isso que eu, uma jovem que não viu a vida lá fora, aconselho a juventude a lutar e vencer pela Paz!

A Paz faz falta à juventude; é mostrar o que é amor e não crueldade, violência, que os leve para uma vida sem esperança, porque para eles o melhor é o roubo, a violência, a droga, o assassínio.

Quanto é tempo pela Paz!

Paz onde andas tu, porque desapareceste assim? Ninguém te viu partir, foste andando lentamente, ou a guerra venceu-te?

Por favor, eu quero perceber! Porque se eles querem a guerra matem-se a eles e não aos outros, não matem crianças, idosos e jovens !

A guerra bateu à porta!

Alguém lhe abriu a porta, pensando que trazia alegria.

Eu e muita gente queremos a Paz, mas a guerra é mais forte.

A guerra vence o amor. Se nós jovens a deixarmos vencer, entrar como se tudo lhe pertencesse, como se tivesse o direito de matar e estragar o mundo que é nosso! Pertence-nos! Mas não vamos ficar a olhar para ela a ver desgraça em cima de desgraças.

Por isso vamos lutar e vencer pela Paz!

Quero só amar que tanta falta faz!

Que é rara a pessoa que passa na rua e vê a Paz!

Só vê é guerra!

Só se vê bombas!

Só se vê ódio!

Só se vê crueldade!

Porquê?

Porque não há Amor neste planeta chamado Terra, onde tantas e tantas pessoas vivem aqui?

Porquê?

Porque não se juntam e formam um mundo cheio de Paz e Harmonia?!

Quando poderemos abrir a janela e ver o Sol a brilhar, o céu azul, as flores com vida, as crianças a sorrir para nós, a brincar com alegria, ver os campos, os prados, as florestas verdes, verdes cor da esperança?!

Esperança, Alegria, Amor, Paz , Harmonia.

Onde vimos onde ouvimos?

Não vimos nem ouvimos, nem em casa nem na rua!

Porque todas as pessoas vêem que sózinhas não conseguem vencer a violência.

É por isso que eu aconselho para todos nos juntarmos e formar um mundo cheio de Amor!

E lutar, lutar até derrotar, essa palavra tão feia, tão feia!

Mas será que a guerra chegará ao nosso país?

Não! Nós todos juntos podemos lutar contra ela, nós todos juntos venceremos.

Porque se ela um dia vier para o nosso país, ela vai destruir a nossa natureza.

Cá ainda tudo é verde, porque ninguém o destruiu, nem vão destruir, se os jovens não

deixarem, mas para isso é preciso LUTAR!

LUTAR pela Paz, essa palavra tão apagada pelas pessoas, porque ninguém vê Amor.

Nos países em que o céu está cinzento só se ouve choros e gritos de crianças, o que é horrível, mas para nós não ouvirmos nem vermos isso, vamo-nos juntar e formar um mundo cheio de Amor!

Se nós não lutarmos não podemos imaginar o nosso futuro , porque ele não vai ser assim, vai ser cinzento e preto, cheio de armas e exércitos onde não vai haver lugar para flores, para sermos felizes!

O mundo está em guerra, ouço os gritos por cada lugar que passo.

As flores quando nascem, logo morrem, não deixando traços.

Porque o mundo está em guerra e o monstro da guerr já começou a destruir a Terra.

Amo a Natureza, o Sol, o Mar,

mas...

Mas tenho medo,

medo, medo que tudo acabe

com uma simples guerra.



MARTA

quarta-feira, 15 de julho de 2009

O pesadelo que podem ser os pormenores e os pormenores que podem ser um pesadelo


Na língua inglesa existe um provérbio cuja tradução para português poderia ser «Deus está nos detalhes» (God is in the details). Ora, eu não posso concordar. A mim, os pormenores arruinam-me profundamente a paciência (é evidente e intencional a aliteração em p, é um pormenor mas estou totalmente consciente dele pois para mal dos meus pecados eu estou atenta aos pormenores). Os detalhes da vida e do trabalho podem ser persistentes e terrivelmente enlouquecedores (não sei se a palavra existe mas também não estou muito preocupada pois esse é apenas um pormenor deste texto), e fazem-nos perder imenso tempo; tempo que poderiamos usar de modos mais produtivos. Se a civilização ocidental não tivesse optado por ignorar o pormenor, hoje muito provavelmente não teriamos a produção em massa com todas as vantagens a ela associadas: os preços mais baixos, o acesso generalizado aos produtos, a multiplicação dos objectos, blá e blá e blá (estou ciente das desvantagens da reprodução em massa mas não é disso que estou agora a falar, por essa razão vou saltar esse lado da questão).

Interessa-me, sim, chamar a atenção para a imensidão de tempo que nós perdemos com a porcaria dos pormenores. Se não fossem os pormenores eu, por exemplo, já teria acabado a minha tese. Assim como eles existem, tenho de gastar horas a tê-los em consideração: a melhorá-los, a limá-los, a alterá-los, a penteá-los e a pontapeá-los.

É também à volta dos pormenores que os simpósios/encontros/cimeiras/conferências mundiais, por exemplo, perdem a ambição primeira de alcançar a paz mundial: perdem-se em pormenores: é mesmo isso. Outra das ocasiões em que os pormenores particulares e minuciosos se tornam inoportunos é quando alguém nos fala de outro alguém, e quando a seguir a uma descrição agradável, tipo: «ela é uma miúda simpática» vem, na maioria das vezes, um MAS que introduz um pormenor desastroso, tipo: «ela é uma miúda simpática, MAS tem imenso mau-hálito». O pormenor estraga tudo e vai contribuir em muito para acabar com a simpatia da simpática da miúda.

Enfim, por tudo isto, e ainda pelo facto da maioria dos meus alunos escrever «promenor» em vez de pormenor, sugiro que em vez de dizer «Deus está nos pormenores», se diga «O diabo está nos pormenores» pois é esse que nos azucrina a paciência e nos impede de avançar, e de fazer sem medo.

Um pormenor: não levem muito a sério aquilo que escrevo...

sexta-feira, 26 de junho de 2009

o que parece às vezes não é

The Sorrows of an American

Estou a ler The Sorrows of an American de Siri Hustvedt e fica aqui um registo de uma entrevista, de 5 de Junho 2009, da escritora à revista Ipsilon: a questão da autoria e da narracção.

Aparentemente, há leitores (ou jornalistas?) que levam tão a sério as coincidências entre a escritora e as suas personagens que às vezes ela tem de explicar que Erik, o narrador e protagonista do seu quarto romance, não é ela. "Ninguém consegue realmente separar, a menos que lhe diga. Inevitavelmente, existe uma espécie de curiosidade mórbida sobre o que é que no livro tem a ver connosco [autores] e o que é que não tem a ver connosco. Se um livro tem uma ressonância emocional e os sentimentos funcionam, as pessoas partem do princípio que aquilo tem de ser real." Siri nunca diria um flaubertiano "Erik c'est moi", portanto? "Não, todas as personagens 'c'est moi'. Não há dúvida de que Erik tem, em parte, a ver comigo. Mas de forma a criar alguém assim, precisamos de sair de nós mesmos, tanto precisamos de sondar o nosso interior. Antes de mais, a sexualidade masculina é diferente da feminina. No livro, Erik tem imensas fantasias sexuais. Tenho tido vários leitores homens. Na Austrália, no final de uma entrevista para a rádio, o jornalista disse-me: 'Isto sou eu. Erik e eu somos iguais'."

Hustvedt refere-se a Erik como "uma espécie de irmão imaginário" (se repararmos bem, é com Inga, a irmã dele, que se parece mais) e diz que, para ela, "um romance é sempre ocupar outra posição, ser outra pessoa". "E sendo outra pessoa, encontro imensa liberdade: se ocuparmos outra posição, ficamos mais livres para explorar certas verdades emocionais."

Fonte: http://ipsilon.publico.pt//livros/texto.aspx?id=233448