sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

A lição

Ontem quando a Matilde saiu da escola disseram-lhe as palavras que lhe retiraram o último balão de oxigénio que tinha. Saíram dos lábios do seu pai as palavras que compunham os sons: Vê se aprendes a lição e nunca mais confies em ninguém.
Para ela que no último ano se tinha agarrado quase só e apenas a essa esperança, afirmando milhentas vezes para si mesma – está tudo mal está mesmo tudo mal – mas ainda posso confiar nas pessoas - aquelas palavras do pai foram o fim. Foram como o paraquedas que não abriu. Durante horas, mesmo muitas horas depois de se estatelar no chão, de cara partida, braços partidos, pernas partidas, aqueles sons não lhe saíam da cabeça. Ela não sabia como iria conseguir. Sempre confiara. A confiança que tinha nos outros era uma das suas fortes características. Fazia parte de si. Era parte da sua condição. Era parte do seu sangue. Agora, e por último, depois de já lhe terem tirado tanta coisa, tiravam-lhe também isso. Só havia um cenário possível: a morte. A morte para os outros é o mesmo que dizer a morte para si. Ontem, depois de ter saído da escola, a Matilde morreu.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Abriu um buraco no tecto da minha casa

Abriu um buraco no tecto da minha casa. Começou pequenino. Agora está maior. Quando olho com vagar parece que consigo vê-lo a crescer. Há momentos em que cresce rápido. Há outros em que cresce lentamente. Não há explicação científica para o facto. Mas o que é certo é que ele lá está. As estrelas olham para mim através dele. E, às vezes, até vejo a minha irmã a dançar com elas ao som das cores do arco-íris. É um buraco grande. Diria eu. Outras vezes, vejo baratas a entrar. Fazem barulho. Assusto-me e deito-me na cama a olhar cheia de medo para aquela porta que tenho no tecto. Já dei voltas à cabeça a tentar arranjar um modo de o fechar. Mas está cada vez maior e eu não sei o que fazer. O outro dia, subi no escadote e fui lá espreitar. Vi a anatomia dos tijolos e do cimento. Vi o céu azul. Sim, decidi enfrentar, de dia, o buraco. à noite é mais difícil: posso tropeçar ou até não encontrar o caminho de volta. Não sei mesmo o que fazer. Se houver alguém que me diga como posso fechá-lo, por favor, POR FAVOR, diga-me. Vou ficar à espera. À espera, agora, no exacto momento em que ele alargou mais uns centímetros.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

marcos

21.01.04.02.22.04.18.05.06.02.03.09.01.01.02.01.06.01

Diálogo de gente sem norte

Eu sou majesty _ Diz ela.
E eu? Sou bom ou mau? _ Pergunta ele.
És mau. _ Afirma ela.
Porquê? _ Interroga-se ele.
Porque não me sabes fazer bem. Fazes-me mal. Deixas-me cada vez mais triste e só. _ Responde ela
Só? _ Espanta-se ele.
Só. Porque havia tudo e agora não há nada. Porque podia haver a perfeição e só resta a desilusão (mais uma vez). _ Assegura-lhe ela.
Não entendo. _ Confunde-se ele.
Não entendes porque só eu sou majesty. Choro, mas faço. Sofro, mas luto. Dói-me, mas levanto-me. Morro de saudades, mas vivo. Fraquejo, mas invento-me forte. Desfaço-me, mas reconstruo-me. Acordo engessada, mas liberto-me. Sou majesty. _ Grita ela.

Madrugada - Majesty

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

O gesso e os dias

Ela acorda muitos dias com as pernas e os braços e o pescoço envoltos em gesso. O gesso que colocam às pessoas e aos animais quando partem uma perna, um braço, um tornozelo ou um pé. É uma sensação estranha, desconfortável – diz-me ela. Mas eu não a entendo. Por mais que queira não consigo imaginar como é acordar com o corpo como se vê nos filmes cómicos: um corpo estendido sobre uma cama de hospital, um corpo envolto em gesso, todo partido, apenas os olhinhos à mostra e a única e extraodinária capacidade de beber por uma palhinha…!

O mundo dá muitas voltas – dizem –, mas quando ela está assim, não há volta a dar. A solução é ficar ali, parada. E esperar que o mundo dê as suas voltas. Há pelo menos a compensação de que o mundo lá fora avança e dá voltas – como se diz. Ou, pelo menos fica o desespero de saber que o mundo lá fora avança e ela nada pode fazer ali parada envolta em gesso até ao pescoço e a beber café por uma palhinha.

Somos uns seres estranhos: corajosos ou inconscientes?

Acordamos todos os dias sabendo que podemos morrer ou que pode morrer alguém que amamos. Quem mais tem esta capacidade? (os animais, acho que não têm…) Como é que conseguimos acordar todos os dias, tomar banho, lavar a cara, vestirmo-nos, sair para a rua, ir trabalhar, fazer comprar no supermercado, sorrir, viver, quando sobre nós paira a mais estranha e cruel certeza: a morte.

Isto faz de nós seres extremamente corajosos ou absurdamente inconscientes. Ainda não tenho a resposta. Mas fico a pensar no assunto. Ah, se fico:)...