Giovanni Battista Pergolesi morreu aos 26 anos, em 1736, muito jovem e ainda assim teve tempo e o talento para nos deixar uma das mais bonitas versões do Stabat Mater. Escolhi uma dessas versões, para mim, uma das mais perfeitas, e publiquei-a aqui (ver abaixo).
Esta é uma das minhas músicas favoritas. Ouço-a quase todos os dias enquanto estudo ou enquanto escrevo. É um hino religioso (católico) do século XIII dedicado a Maria. A Mãe que vê o seu único filho morrer.
A música tem o efeito de nos transportar para outros estados de alma por isso quando ouço músicas como esta fico mais tranquila. E coloco-a aqui como um presente para a minha mãe que também perdeu um filho - uma filha - e que todos os dias procura aprender a viver com essa perda.
domingo, 30 de janeiro de 2011
sábado, 29 de janeiro de 2011
crimes diários
O Carlos passou por mim a correr e disse: _ Descupa, ma já tou memo atrasado prá runião. Quando chegar a casa tefono-te!! Mas que careéssa?! Não fiques assim, o café fica pra outro dia. Pormeto!
Ok. _ Pensei eu. A pressa dele devia ser mesmo muito urgente. Perdoei-lhe o facto de não ter tempo para beber um café comigo mas não sei se lhe perdoo ter esfaqueado brutalmente a minha língua portuguesa.
Ok. _ Pensei eu. A pressa dele devia ser mesmo muito urgente. Perdoei-lhe o facto de não ter tempo para beber um café comigo mas não sei se lhe perdoo ter esfaqueado brutalmente a minha língua portuguesa.
inverno
O Janeiro chegou frio. Afinal já era inverno há um mês e ainda não o tinha sentido na pele. Nem no seu armário tinha ainda mudado a ordem das roupas: das mais frescas para as mais quentes. Nem as caixas debaixo da cama onde ela guardava os sapatos, as botas, as socas tinham a ordem que o inverno pedia. Ainda estavam todos misturados: os sapatos, as botas, as socas, os chinelos. Era uma tarefa a fazer. Apenas as écharpes de lã já estavam em cima da cadeira que tem no quarto. A cadeira ao lado espelho. Mas o frio chegou e nessa manhã, a Matilde acordou e conseguia quase cheirá-lo. Como todos os dias, Matilde acordou e, como todos os dias, ficou feliz por abrir os olhos e estar viva. O primeiro gesto que fez foi aquele que mais detesta mas aquele a que a obrigação a obriga: olhar para o telemóvel para ver as horas. As horas controlam-na, ainda mais do que a controla o telemóvel. Haverá poucas pessoas que detestam tanto este objecto como ela o detesta. Só dá sinais do mundo quando não deve e quando deve tocar torna-se um vegetal: não dá sinais do mundo nem da vida dos outros. O telemóvel toca mais nos dias de semana. Por isso, essa é uma das coisas que mais gosta nos fins-de-semana: o bicho sonoro não mexe. Fica moribundo e ela regozija-se por vê-lo assim: quase morto - la mort du téléphone - essa poderia ser a legenda do fim-de-semana da Matilde. Se pudesse não o tinha. Mas é fim-de-semana e ela também agradece isso: o silêncio do bicho. Tal como agradece quando acorda. Não se lembra quando o começou a fazer: a agradecer. Mas já lá vão uns anos. E já não consegue fazer de outra maneira. Não sabe a quem agradece o facto de acordar com todos os sentidos no sítio. Mas agradece. Hoje o inverno está em casa dela. Ela recebe-o com a arrumação das roupas no armário e dos sapatos e socas nas caixas. Sai de casa, cruza-se com pessoas em casulo. Tal o frio. Sabe-lhe bem sentir o ar na cara. Regressa a casa e traz ainda o inverno consigo. E fica Invisível a Ver a luz fosca do dia No sofá da sala.
sexta-feira, 28 de janeiro de 2011
Era uma vez...
Conheci-o numa noite de fim de verão. Eu tinha saído de uma casa onde fora jantar e ele veio ter comigo. Silenciosamente mas muito seguro. Deviam ser mais ou menos duas da manhã, mas era verão, a noite estava parada e o ar morno enchia-me de calma. Por isso eu estava ali à porta da casa, parada como a noite. Aproximou-se e olhou-me nos olhos. Apaixonámo-nos logo ali e levei-o para casa. Tremíamos os dois. Não sei se de medo, se apenas da novidade. Mas tive logo ali a certeza de que alguma coisa em mim iria mudar. Quando entrámos em casa dei-lhe um nome: Ruca. Ruca porque pode ser nome de pessoa, Ruca porque começa com R – como o meu nome -, Ruca porque o encontrei na RUa e abri-lhe a porta a minha CAsa. Tem pêlo preto como a noite em que nos conhecemos. Tem olhos verdes como as folhas das árvores que havia ao lado da casa. Desde o dia em que entrou na minha vida passou a fazer-me companhia. Gostava quando eu chegava a casa. Falava por detrás da porta da casa assim que ouvia o meu carro a chegar. A nossa casa. Rapidamente ele se tornou dono daquela casa. Eu não era a dona dele (como muitos afirmam), eu era um elemento da casa, tal como ele. Deitava-se atrás do ecrã do computador a espreitar. A ver-me através do verde. Eu a trabalhar, ele a olhar para mim. Deitava-se no sofá comigo, junto da minha barriga; ficava como uma bolinha quente com coração a bater sempre rápido e a fazer o som com o efeito mais calmante. Gostávamos (e gostaremos sempre) os dois da liberdade. Por isso, depois de lhe ter aberto a porta para entrar, naquela noite de verão, sempre lhe a abri para ele sair quando quisesse. Tinha um coração leve, vivia sempre alerta, assustava-se facilmente. Tinha molas nas patinhas, e falava. Falava muito. Falava para me dizer que queria sair, falava para me dizer que queria entrar, falava para me dizer que queria dormir na minha cama. Falava, mas nem sempre conversava. Tem nome de pessoa mas não conversava sempre que eu conversava com ele. Era teimoso. Deliciosamente teimoso. A partir do momento em que veio viver comigo, fiquei mais feliz. Depois de me ter despedido dele, deixámos de conversar. Agora, quando o vejo, vem ter comigo: quer o meu colo. Fica ali quieto – muito quieto, a olhar-me e a olhar à volta (provavelmente à espera do momento em que eu saio pela porta fora). Fica ali sossegado até que alguma coisa (um mínimo ruído, uma porta que se fecha, uma porta que se abre, um telemóvel que toca, um movimento meu, mesmo que lento) lhe sobressalta o coração. Quando saio de casa sem ele, ele vem comigo. Está sempre comigo, apesar de eu me ter despedido dele.
sexta-feira, 21 de janeiro de 2011
A(s) casa(s)
A casa – a primeira – um rés-do-chão em Benfica. Não tem memória dela mas tem a memória emprestada dos outros ilustrada por meia dúzia de fotografias. Acha que era pequena, apertada, bonita. Foi o espaço onde ela estava quando chegou a irmã e com a irmã vieram visitas e a maior caixa de smarties que alguma vez vira. Por isso, até não é verdade que não tenha memória dessa casa. Ela tem: a imagem da maior caixa de smarties do mundo. Uma caixa que lhe deram talvez por ser um presente, talvez para a deixar mais feliz, talvez para ela saber que apesar de a partir daquele momento os pais terem mais uma filha, ela continuaria a receber presentes: a maior caixa de smarties
do mundo. Não tem memória de quem lha deu, mas ainda hoje a agradece.
A segunda – na Rua das Camélias, nº6, 1º esquerdo – o nome sempre lhe pareceu romântico. Ela era a Dama das Camélias. Cresceu ali. Tinha o mundo inteiro ali: a escola (uma garagem) no topo da rua e as amigas no 1º direito e no r/c esquerdo. Cresceu ali. Foi feliz. Muito feliz (ainda ela não o soubesse naqueles momentos).
A terceira – no subúrbio – o verdadeiro. Ao lado da linha do comboio. A linha do comboio, o apito do comboio, o cheiro das linhas dos comboios que (não sabia ela então) a iriam acompanhar em mais três casas. Foi nesta casa número três que soprou as velas dos dezoito anos. Era uma casa longe. Longe da cidade grande onde a vida acontecia – pensava ela. Mas era uma casa – e era feliz (ela sabia).
A quarta – em Faro – com uma amiga e um emprego. Uma aventura. Um terraço. Um começo. Um quarto às vezes grande às vezes pequeno. Ela foi também feliz ali.
A quinta – um anexo de casa a poucos quilómetros de Tavira – não tem recordações; apenas toalhas turcas lhe vêm à cabeça e as longas caminhadas até à estação (mais uma vez os comboios e as linhas dos comboios) e da estação à Universidade e da Universidade à estação e da estação por um caminho de lama até casa, o anexo.
A sexta – um quarto na casa da amiga com quem partilhou a quarta casa – tinha um quarto e tinha a casa toda. Foi feliz.
A sétima – com a força do número sete e foi talvez por essa razão que esta foi a sua primeira casa. Dizem que o número sete indica o fim ou o início de um ciclo. Foi verdade. Esta casa foi um fim. Comprou-a, assinou a escritura: uma vitória e um virar de página. Não sabia na altura que iria ser tão violento o virar de página. Quinze dias depois dos selos, dos carimbos, das pessoas nas conservatórias, da azafama, o mundo caiu – o mundo dela caiu – o dos outros continuou. A continuação da vida dos outros foi uma das emoções que mais lhe ficou a remoer no estômago. A casa era ao lado da linha do comboio. Mais uma vez. Ela ouvia-os a todos, especialmente, o das duas da manhã – o das mercadorias. Não foi feliz naquela casa, não foi possível, não lhe permitiram, não conseguiu. A partir da sétima casa a vida dela ficou diferente. Ela ficou outra. Para sempre mais só.
A oitava – em Tunes – foi feliz. Obrigou-se a ter a noção de que era feliz. E houve muitos momentos em que foi mesmo feliz. A casa era bonita. Um closet. Uma piscina. Um pátio. Ao lado da linha do comboio. Saiu da oitava casa ao jeito de um jogo à la Houdini: uma fuga impossível.
A nona – em Faro, novamente, - se calhar a primeira de mais umas quantas. Espera ela. Aliás, ela está lá à espera. À espera da próxima casa onde vai ser muito feliz. Tem de ser, a infelicidade tem de ter data de validade como os iogurtes. Quer acreditar. Às vezes consegue mesmo acreditar.
do mundo. Não tem memória de quem lha deu, mas ainda hoje a agradece.
A segunda – na Rua das Camélias, nº6, 1º esquerdo – o nome sempre lhe pareceu romântico. Ela era a Dama das Camélias. Cresceu ali. Tinha o mundo inteiro ali: a escola (uma garagem) no topo da rua e as amigas no 1º direito e no r/c esquerdo. Cresceu ali. Foi feliz. Muito feliz (ainda ela não o soubesse naqueles momentos).
A terceira – no subúrbio – o verdadeiro. Ao lado da linha do comboio. A linha do comboio, o apito do comboio, o cheiro das linhas dos comboios que (não sabia ela então) a iriam acompanhar em mais três casas. Foi nesta casa número três que soprou as velas dos dezoito anos. Era uma casa longe. Longe da cidade grande onde a vida acontecia – pensava ela. Mas era uma casa – e era feliz (ela sabia).
A quarta – em Faro – com uma amiga e um emprego. Uma aventura. Um terraço. Um começo. Um quarto às vezes grande às vezes pequeno. Ela foi também feliz ali.
A quinta – um anexo de casa a poucos quilómetros de Tavira – não tem recordações; apenas toalhas turcas lhe vêm à cabeça e as longas caminhadas até à estação (mais uma vez os comboios e as linhas dos comboios) e da estação à Universidade e da Universidade à estação e da estação por um caminho de lama até casa, o anexo.
A sexta – um quarto na casa da amiga com quem partilhou a quarta casa – tinha um quarto e tinha a casa toda. Foi feliz.
A sétima – com a força do número sete e foi talvez por essa razão que esta foi a sua primeira casa. Dizem que o número sete indica o fim ou o início de um ciclo. Foi verdade. Esta casa foi um fim. Comprou-a, assinou a escritura: uma vitória e um virar de página. Não sabia na altura que iria ser tão violento o virar de página. Quinze dias depois dos selos, dos carimbos, das pessoas nas conservatórias, da azafama, o mundo caiu – o mundo dela caiu – o dos outros continuou. A continuação da vida dos outros foi uma das emoções que mais lhe ficou a remoer no estômago. A casa era ao lado da linha do comboio. Mais uma vez. Ela ouvia-os a todos, especialmente, o das duas da manhã – o das mercadorias. Não foi feliz naquela casa, não foi possível, não lhe permitiram, não conseguiu. A partir da sétima casa a vida dela ficou diferente. Ela ficou outra. Para sempre mais só.
A oitava – em Tunes – foi feliz. Obrigou-se a ter a noção de que era feliz. E houve muitos momentos em que foi mesmo feliz. A casa era bonita. Um closet. Uma piscina. Um pátio. Ao lado da linha do comboio. Saiu da oitava casa ao jeito de um jogo à la Houdini: uma fuga impossível.
A nona – em Faro, novamente, - se calhar a primeira de mais umas quantas. Espera ela. Aliás, ela está lá à espera. À espera da próxima casa onde vai ser muito feliz. Tem de ser, a infelicidade tem de ter data de validade como os iogurtes. Quer acreditar. Às vezes consegue mesmo acreditar.
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