Tal como no romance (lindo, magnífico, comovente) de Vergílio Ferreira, a personagem recorda - no final da sua vida - o seu passado e, curiosamente, o seu futuro, também eu hoje (mesmo com a memória desgraçada que tenho) decidi recuar ao dia 4 de Feveveiro de 1995: O dia que ficará para sempre marcado no meu sangue.
Acordei, tomei banho, vesti-me, comi e saí para ir dar um exame. Apesar de ser sábado, havia exame. Havia exame, mas não havia telemóveis como hoje em dia. Eu, pelo menos, não tinha um. Estava a meio do exame, no anfiteatro e uma funcionária vem dizer-me que me tinham telefonado. Os meus pais tinham-me telefonado ou o Ricardo tinha-me telefonado. Não me lembro. Também por uma razão que não recordo, não telefonei de volta a partir da escola, fui a uma cabine telefónica que está no parque de estacionamento da universidade. Aí telefonei para o Ricardo (se calhar, a chamada tinha sido mesmo dele).
A voz que ouvi estava calma. Disse-me que a minha irmã estava no hospital e que eu deveria ir para Beja. O dia estava lindo e frio. A voz ao telefone não me disse mais nada. Assim que desliguei o telefone, pensei que a Marta tinha tido um acidente de mota. Assim que desliguei o telefone, senti o negro dentro de mim. Mas afastei-o: ela só tinha tido um acidente de mota, provavelmente, uma perna partida, um braço partido.
Regressei ao edifífio da escola a tremer mas não pelo frio. Fiquei a tremer durante muito tempo. Deram-me logo ali um calmante porque me acharam muito nervosa. Eu não queria: dizia que tinha sido apenas um acidente de mota. Mas não sentia que tinha sido apenas um acidente de mota. Sentia mais, mas não queria sentir mais.
Saí da universidade, fui a pé para a estação do comboio (o comboio está muitas vezes presente na minha vida), esperei pelo comboio, entrei no comboio, saí em Tavira. Fui a pé até casa do Ricardo. Vi caras calmas. Pensei que o que sentia estava provavelmente errado. Se calhar foi mesmo só uma perna partida.
O Ricardo disse que me levava a Beja. Antes de entrar no carro, a mãe do Ricardo fez-me uma festa na cara. Aí tive a certeza que o que sentia estava cada vez mais certo. Aquela festa na cara tinha uma mensagem.
Entrámos no carro. Estava um dia lindo, sol e frio. Lembro-me que parámos para comer algures para lá de Mértola. Não me lembro do que conversámos na viagem, mas não conversámos nada sobre a Marta. O Ricardo já sabia (penso eu) e não devia querer dar-me pistas.
Chegámos ao hospital de Beja. Entrei. O meu nome é Rita e venho visitar a minha irmã. Como se chama? Chama-se Marta. Qual é o piso onde está e qual é o número do quarto? Silêncio. O negro crescia dentro de mim. Silêncio. Vá aí para essa sala à direita que a médica vai falar consigo. Fui. O Ricardo estava comigo. A médica entrou. A Marta morreu. Eu desmaiei. Quando acordei estava noutro sítio - para sempre - num sítio onde eu tremia; até ouvia o som dos meus dentes a baterem. Para sempre fiquei outra. Para sempre perdi a minha irmã. Para sempre terei saudades dela. Para sempre a minha irmã ficará jovem. Para sempre, a minha irmã não vai sofrer mais. Para sempre, eu fiquei diferente. Para sempre, a minha irmã existirá.
Por tudo isto, tal como o protagonista do livro de Vergílio Ferreira, hoje recordo o meu passado e até o meu futuro pois tu estiveste/estás/estarás para sempre na minha vida.
Amo-te, Marta.
Sinto que estarás bem. Para sempre.
sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011
quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011
os aniversários
Tal como há quem veja o copo sempre meio vazio também há quem o veja sempre meio cheio. Isso já todos sabemos e frequentemente ouvimos. Não estou a dar novidade nenhuma. E também todos nós conhecemos pessoas que optam por uma ou por outra perspectiva.
O mesmo sucede com os aniversários, ou melhor, com as celebrações dos aniversários. Há quem considere que o aniversário marca o segundo em que se celebram os dias e os momentos que se viveram até ali e há quem considere que o aniversário marca a certeza de um ano a menos para o fim. Aquele fim que é garantido – tal como se ouve na publicidade: aqui vende-se ao preço mínimo garantido. Não há preço mais mínimo do que aquele - não há outro fim, para nós, que não o garantido. Há quem viva o dia de aniversário como se fosse um dos dias mais tristes e miseráveis do ano. Há quem viva o dia de aniversário como se fosse uma conquista dos dias que já ganhou. Eu até que percebo as duas posições. E a minha opinião vacila e até poderia dizer: Acho que tem dias (como diz a senhora que trabalha na pastelaria ao lado da minha casa). Tem dias em que os dias têm uma conta decrescente, tem dias em que o cálculo é crescente (a meu favor, evidentemente). Mas na maioria deles (dos dias) acho que a celebração de um aniversário é como se disséssemos ao universo: estes já não mos tiras. Estes já são meus, já os vivi e estou muito feliz por isso. Diria, até, estou muito orgulhosa disso. Daí que tenho de tirar o melhor de cada dia. Tirar que é como quem diz o oposto: dar. Tenho de dar o melhor todos os dias. Não falo de dar o meu melhor no sentido mais corriqueiro e usado da expressão: algo como «tenho de ser e agir no máximo das minhas potencialidades todos os dias e a todas as horas». Não falo nesses termos porque isso não é realista. O máximo das minhas potencialidades tem variáveis incontroláveis por isso não pode existir essa coisa de dar o meu melhor. Quando falo em dar, refiro-me literalmente a dar. A dar o meu tempo e a minha ajuda a quem precisa. E dar não é fácil, nem é para todos. São poucos os que têm a capacidade de ser dar aos outros e à vida. Só o faz quem não tem medo, ou seja, quem tem a coragem de sofrer com os outros. Dar é acreditar que pelo menos isso já não nos tiram. Como o sinto quase todos os meus aniversários.
O mesmo sucede com os aniversários, ou melhor, com as celebrações dos aniversários. Há quem considere que o aniversário marca o segundo em que se celebram os dias e os momentos que se viveram até ali e há quem considere que o aniversário marca a certeza de um ano a menos para o fim. Aquele fim que é garantido – tal como se ouve na publicidade: aqui vende-se ao preço mínimo garantido. Não há preço mais mínimo do que aquele - não há outro fim, para nós, que não o garantido. Há quem viva o dia de aniversário como se fosse um dos dias mais tristes e miseráveis do ano. Há quem viva o dia de aniversário como se fosse uma conquista dos dias que já ganhou. Eu até que percebo as duas posições. E a minha opinião vacila e até poderia dizer: Acho que tem dias (como diz a senhora que trabalha na pastelaria ao lado da minha casa). Tem dias em que os dias têm uma conta decrescente, tem dias em que o cálculo é crescente (a meu favor, evidentemente). Mas na maioria deles (dos dias) acho que a celebração de um aniversário é como se disséssemos ao universo: estes já não mos tiras. Estes já são meus, já os vivi e estou muito feliz por isso. Diria, até, estou muito orgulhosa disso. Daí que tenho de tirar o melhor de cada dia. Tirar que é como quem diz o oposto: dar. Tenho de dar o melhor todos os dias. Não falo de dar o meu melhor no sentido mais corriqueiro e usado da expressão: algo como «tenho de ser e agir no máximo das minhas potencialidades todos os dias e a todas as horas». Não falo nesses termos porque isso não é realista. O máximo das minhas potencialidades tem variáveis incontroláveis por isso não pode existir essa coisa de dar o meu melhor. Quando falo em dar, refiro-me literalmente a dar. A dar o meu tempo e a minha ajuda a quem precisa. E dar não é fácil, nem é para todos. São poucos os que têm a capacidade de ser dar aos outros e à vida. Só o faz quem não tem medo, ou seja, quem tem a coragem de sofrer com os outros. Dar é acreditar que pelo menos isso já não nos tiram. Como o sinto quase todos os meus aniversários.
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domingo, 30 de janeiro de 2011
Ler + carregar no play no post abaixo + ouvir = calma
Giovanni Battista Pergolesi morreu aos 26 anos, em 1736, muito jovem e ainda assim teve tempo e o talento para nos deixar uma das mais bonitas versões do Stabat Mater. Escolhi uma dessas versões, para mim, uma das mais perfeitas, e publiquei-a aqui (ver abaixo).
Esta é uma das minhas músicas favoritas. Ouço-a quase todos os dias enquanto estudo ou enquanto escrevo. É um hino religioso (católico) do século XIII dedicado a Maria. A Mãe que vê o seu único filho morrer.
A música tem o efeito de nos transportar para outros estados de alma por isso quando ouço músicas como esta fico mais tranquila. E coloco-a aqui como um presente para a minha mãe que também perdeu um filho - uma filha - e que todos os dias procura aprender a viver com essa perda.
Esta é uma das minhas músicas favoritas. Ouço-a quase todos os dias enquanto estudo ou enquanto escrevo. É um hino religioso (católico) do século XIII dedicado a Maria. A Mãe que vê o seu único filho morrer.
A música tem o efeito de nos transportar para outros estados de alma por isso quando ouço músicas como esta fico mais tranquila. E coloco-a aqui como um presente para a minha mãe que também perdeu um filho - uma filha - e que todos os dias procura aprender a viver com essa perda.
sábado, 29 de janeiro de 2011
crimes diários
O Carlos passou por mim a correr e disse: _ Descupa, ma já tou memo atrasado prá runião. Quando chegar a casa tefono-te!! Mas que careéssa?! Não fiques assim, o café fica pra outro dia. Pormeto!
Ok. _ Pensei eu. A pressa dele devia ser mesmo muito urgente. Perdoei-lhe o facto de não ter tempo para beber um café comigo mas não sei se lhe perdoo ter esfaqueado brutalmente a minha língua portuguesa.
Ok. _ Pensei eu. A pressa dele devia ser mesmo muito urgente. Perdoei-lhe o facto de não ter tempo para beber um café comigo mas não sei se lhe perdoo ter esfaqueado brutalmente a minha língua portuguesa.
inverno
O Janeiro chegou frio. Afinal já era inverno há um mês e ainda não o tinha sentido na pele. Nem no seu armário tinha ainda mudado a ordem das roupas: das mais frescas para as mais quentes. Nem as caixas debaixo da cama onde ela guardava os sapatos, as botas, as socas tinham a ordem que o inverno pedia. Ainda estavam todos misturados: os sapatos, as botas, as socas, os chinelos. Era uma tarefa a fazer. Apenas as écharpes de lã já estavam em cima da cadeira que tem no quarto. A cadeira ao lado espelho. Mas o frio chegou e nessa manhã, a Matilde acordou e conseguia quase cheirá-lo. Como todos os dias, Matilde acordou e, como todos os dias, ficou feliz por abrir os olhos e estar viva. O primeiro gesto que fez foi aquele que mais detesta mas aquele a que a obrigação a obriga: olhar para o telemóvel para ver as horas. As horas controlam-na, ainda mais do que a controla o telemóvel. Haverá poucas pessoas que detestam tanto este objecto como ela o detesta. Só dá sinais do mundo quando não deve e quando deve tocar torna-se um vegetal: não dá sinais do mundo nem da vida dos outros. O telemóvel toca mais nos dias de semana. Por isso, essa é uma das coisas que mais gosta nos fins-de-semana: o bicho sonoro não mexe. Fica moribundo e ela regozija-se por vê-lo assim: quase morto - la mort du téléphone - essa poderia ser a legenda do fim-de-semana da Matilde. Se pudesse não o tinha. Mas é fim-de-semana e ela também agradece isso: o silêncio do bicho. Tal como agradece quando acorda. Não se lembra quando o começou a fazer: a agradecer. Mas já lá vão uns anos. E já não consegue fazer de outra maneira. Não sabe a quem agradece o facto de acordar com todos os sentidos no sítio. Mas agradece. Hoje o inverno está em casa dela. Ela recebe-o com a arrumação das roupas no armário e dos sapatos e socas nas caixas. Sai de casa, cruza-se com pessoas em casulo. Tal o frio. Sabe-lhe bem sentir o ar na cara. Regressa a casa e traz ainda o inverno consigo. E fica Invisível a Ver a luz fosca do dia No sofá da sala.
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