quarta-feira, 23 de março de 2011
segunda-feira, 14 de março de 2011
(diálogo a solo)
Como é possível estar a viver sem rumo quando ele está mesmo à minha frente? Também não sabes? Eu acho que sabes. Vá...diz-me lá...Eu acho que sabes. Por que dizes isso? Eu não sei se é assim. Mas, por que razão dizes isso?... Sim, contigo foi assim; comigo, acho que não será. Também não te entendo. O que perguntas? Não sei. Não sei o que te responder quando me fazes essas perguntas. Acho que tens razão em algumas das coisas que dizes, noutras não te quero dar razão. Até te poderia dá-la mas agora não quero. Não é bem não querer; a questão é que agora não posso. É por isso que consigo viver com um rumo incontrolável e vê-lo estampado à minha frente. No espelho? Foi espelho que disseste? Não, não é no espelho. É na sombra que ensombra os dias. É na sombra que me acompanha mesmo quando não quero, tal como o rumo que se traça mesmo sem ser pela minha mão. Olha, a propósito de sombra, recordas o que me contaste naquele dia na praia? Não, não foi isso. Não te lembras? Estávamos na praia, a maré estava cheia, calor, gente e ficámos deitadas à sombra a tarde quase toda. Sim, nesse dia. Pois, contaste-me o que se passou e quero que saibas que tal como me pediste mantive segredo. Espanta-te isso...estou a ver. Eu mantive o segredo. Aliás, tenho defeitos mas tenho essa (grande) qualidade: guardo para sempre um segredo. O de toda a gente, não só os teus. Que bom para mim? Acho que sim. Pois, e o que fizeste em relação a isso? Que bom, para ti. Eu não tenho feito nada de jeito. É como te digo, estou a viver o rumo que traçaram por mim.
quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011
não sei como é com os outros
Eu não sei como é com os outros, mas comigo, eu sei. É difícil, é muito difícil escrever uma tese de doutoramento. É um processo lento, cheio de avanços e recuos temperados pelas minhas profundas inseguranças e, ainda, marcado pelos serpenteantes percursos dos meus pensamentos. Os meus pensamentos não seguem a direito como acontece sobejas vezes com os carros orientados pelas preciosas dicas do GPS. Os meus pensamentos percorrem a vida dos outros, as preocupações (as minhas e as dos meus amigos e as dos meus pais e as da minha P.) seguem os raios intermitentes da luz do sol que ilumina a sala do meu T1 com kitchenette, através dos estores. Os meus pensamentos são desviados pelo som da sirene do carro da polícia, pelo alarme do carro de um vizinho, pela buzina de alguém que não consegue tirar o carro pois tem outro carro estacionado atrás dele, em segunda fila, e, principalmente, pela sirene das ambulâncias. Essas têm um poder fortíssimo sobre o vai e vem dos meus pensamentos. Penso: Antes estar aqui do que na ambulância, mas assim que penso isso mesmo, já me distraí e já lá vai o meu pensamento para longe das teclas do computador. Vai para dentro do hospital, para o lado do avesso das dores dos outros e das minhas. Por que não das minhas também?!
Escrever uma tese de doutoramento exige concentração - eu penso mesmo que à maneira de como se falava nos anos 80 - escrever uma tese de doutoramento é o CÚMULO DA CONCENTRAÇÃO:) Ora, para quem me conhece. Corrijo: Para quem me conhece agora aos 40 e a viver os 40 que vivo, concentração é dos truques mais difíceis de conseguir. A minha concentração está ao nível da cave, melhor, da garagem do prédio onde, infelizmente, o meu carro não dorme.
Escrever uma tese de doutoramento não tem nada, absolutamente, nada a ver com a nossa inteligência (seja isso o que for). Escrever uma tese de doutoramento é proporcional à nossa capacidade de resistência. Ao género da que têm os maratonistas. E eu, pelos vistos, sou mais um desses, umas dessas. Eu sou uma maratonista com paragens frequentes na box para rebastecer o oxigénio, a esperança, a energia e, acima de tudo, a persistência.
Eu não sei como é com os outros, mas comigo e para mim é difícil. E estou desejando o dia em que tudo isto termina. Para poder recomeçar a viver sem as costas doridas das horas sentada ao computador, para poder olhar a vida sem este peso que me imponho. Sim, eu tenho responsabilidade neste peso que me imponho; mas na verdade não sei fazer de outro modo. Provavelmente, os outros conseguem, mas eu não. Não sei como é com os outros, mas comigo não é fácil. Se calhar é porque viver comigo não é fácil. Penso muito.
Eu não sei como é com os outros, mas comigo é difícil...:) mas não se preocupem, eu posso não ser mais nada, mas sou uma resistente. Até já tenho a boina e o penteado à la mode de la résistance ou de la résistance à la mode:)!
Escrever uma tese de doutoramento exige concentração - eu penso mesmo que à maneira de como se falava nos anos 80 - escrever uma tese de doutoramento é o CÚMULO DA CONCENTRAÇÃO:) Ora, para quem me conhece. Corrijo: Para quem me conhece agora aos 40 e a viver os 40 que vivo, concentração é dos truques mais difíceis de conseguir. A minha concentração está ao nível da cave, melhor, da garagem do prédio onde, infelizmente, o meu carro não dorme.
Escrever uma tese de doutoramento não tem nada, absolutamente, nada a ver com a nossa inteligência (seja isso o que for). Escrever uma tese de doutoramento é proporcional à nossa capacidade de resistência. Ao género da que têm os maratonistas. E eu, pelos vistos, sou mais um desses, umas dessas. Eu sou uma maratonista com paragens frequentes na box para rebastecer o oxigénio, a esperança, a energia e, acima de tudo, a persistência.
Eu não sei como é com os outros, mas comigo e para mim é difícil. E estou desejando o dia em que tudo isto termina. Para poder recomeçar a viver sem as costas doridas das horas sentada ao computador, para poder olhar a vida sem este peso que me imponho. Sim, eu tenho responsabilidade neste peso que me imponho; mas na verdade não sei fazer de outro modo. Provavelmente, os outros conseguem, mas eu não. Não sei como é com os outros, mas comigo não é fácil. Se calhar é porque viver comigo não é fácil. Penso muito.
Eu não sei como é com os outros, mas comigo é difícil...:) mas não se preocupem, eu posso não ser mais nada, mas sou uma resistente. Até já tenho a boina e o penteado à la mode de la résistance ou de la résistance à la mode:)!
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
Já não há surpresas
A vida que se tem, raramente é aquela que se queria ter. As razões podem ser diversas. Pode suceder que não se tenha a capacidade de apreciar o que se tem. Pode acontecer que se seja um insatisfeito eterno. Pode suceder que não se tenha a capacidade de agir e pensar. Pode acontecer que seja mesmo verdade aquilo que se sente: a vida que se tem não é aquela que se deveria ter.
Isto disse-me a Matilde no outro dia. Estava triste, ela. Eu já não sei o que lhe dizer; muitas vezes fico em silêncio, apenas a ouvi-la falar, a limpar-lhe as lágrimas ou a reduzir o som dos gritos que lhe saem dos olhos. Ela até tem razão, a vida tem sido tão cheia de surpresas (e não das supreendentemente agradáveis, mas das outras: do outro tipo de surpresas, das desagradáveis) que a Matilde sente-se com pouca força para as digerir. Durante uns tempos consegue, mas durante outros, não. E não sabe como ter a vida que queria ter.
Ela disse-me isto e saiu da sala.
Virou costas e foi mudar de roupa. Muda de roupa muitas vezes. Acho que o faz porque isso lhe acompanha o ritmo do seu pensamento. E o seu pensamento é rápido e, com frequência, confuso. Ela tenta, eu já a vi muitas vezes tentar, sentir-se menos confusa e tentar gostar da vida que tem: com supresas surpreendentemente desastrosas e tudo o mais. Mas quase nunca ela consegue. Não se sente bem.
Sente-se sozinha e coloca nos lábios instáveis as palavras que ouviu no outro dia no cinema: _Chego a casa e está lá tudo como deixei: a chávena do café por lavar, o mesmo cd na aparelhagem, a mesma dobra no edredon – a dobra que ficou quando de manhã tentei fazer a cama - a tampa da sanita para baixo, a tampa da pasta dentífrica no sítio, os sacos da reciclagem nem mais cheios nem mais vazios, o mesmo perfume no ar, as botas como as descalço. Tudo espelhamente igual ao momento no qual saí de casa. Saio e regresso sempre para o mesmo cenário. Acho que é isso também o que me faz mal: a ausência de surpresas surpreendentemente agradáveis. O mesmo do mesmo não é bom quando à partida o mesmo não está bom. Fazem-me falta surpresas, das do tipo supreendementemente boas.
Disse isto e regressou ao quarto. Acho que foi outra vez mudar de roupa.
Isto disse-me a Matilde no outro dia. Estava triste, ela. Eu já não sei o que lhe dizer; muitas vezes fico em silêncio, apenas a ouvi-la falar, a limpar-lhe as lágrimas ou a reduzir o som dos gritos que lhe saem dos olhos. Ela até tem razão, a vida tem sido tão cheia de surpresas (e não das supreendentemente agradáveis, mas das outras: do outro tipo de surpresas, das desagradáveis) que a Matilde sente-se com pouca força para as digerir. Durante uns tempos consegue, mas durante outros, não. E não sabe como ter a vida que queria ter.
Ela disse-me isto e saiu da sala.
Virou costas e foi mudar de roupa. Muda de roupa muitas vezes. Acho que o faz porque isso lhe acompanha o ritmo do seu pensamento. E o seu pensamento é rápido e, com frequência, confuso. Ela tenta, eu já a vi muitas vezes tentar, sentir-se menos confusa e tentar gostar da vida que tem: com supresas surpreendentemente desastrosas e tudo o mais. Mas quase nunca ela consegue. Não se sente bem.
Sente-se sozinha e coloca nos lábios instáveis as palavras que ouviu no outro dia no cinema: _Chego a casa e está lá tudo como deixei: a chávena do café por lavar, o mesmo cd na aparelhagem, a mesma dobra no edredon – a dobra que ficou quando de manhã tentei fazer a cama - a tampa da sanita para baixo, a tampa da pasta dentífrica no sítio, os sacos da reciclagem nem mais cheios nem mais vazios, o mesmo perfume no ar, as botas como as descalço. Tudo espelhamente igual ao momento no qual saí de casa. Saio e regresso sempre para o mesmo cenário. Acho que é isso também o que me faz mal: a ausência de surpresas surpreendentemente agradáveis. O mesmo do mesmo não é bom quando à partida o mesmo não está bom. Fazem-me falta surpresas, das do tipo supreendementemente boas.
Disse isto e regressou ao quarto. Acho que foi outra vez mudar de roupa.
terça-feira, 15 de fevereiro de 2011
Ao jeito de uma máxima
Viver mata e é por essa razão que o ser humano não é imortal.
Pois se a vida não matasse, nós seriamos de certeza imortais.
Pois se a vida não matasse, nós seriamos de certeza imortais.
sábado, 12 de fevereiro de 2011
Ema e as suas oito vidas
Dizem que os gatos têm sete vidas. Pois bem, a Ema já conta com mais no seu curriculum. Tem trinta e cinco anos, e já viveu oito. Ela é muito despachada. Acho que isso tem muito a ver com o modo elegante como vive cada uma dessas vidas – sim, as oito vidas ocorrem-lhe em simultâneo e por isso ela tem de as viver ao mesmo tempo (às vezes, com poucos segundos para respirar entre cada uma delas). Na minha opinião, a Ema é uma atleta de alta competição: uma malabarista de alta competição que, recorrendo a manobras diversas, mantém todas as peças no ar: objectos em fogo, pedaços de madeira, pinos de bowling, … – todas as oito vidas - quero eu dizer – no ar. São manobras, mas não são truques naquele sentido sujo da palavra. (Sei que o malabarismo não é considerado um desporto de alta competição mas eu sempre achei que deveria ser.) A elegância da Ema, às vezes, só se esvai quando lhe sobe o coração à boca e vemos formar nos seus lábios os sons de palavras que eu, por pudor, não revelo. Mas confirmo que é a sua elegância de vida – aquela que ela transporta na altura do seu corpo e da sua alma - que a faz conseguir gerir as vidas todas que vive. Não tem tempo para esperar, como ela diz, por isso tem de seleccionar com rigor. Não tem tempo para gente que não se decide. Não tem tempo para gente que não sabe lutar pelo que quer. Não tem tempo para esperar. A esperar, só se for pelo gato aquele que, entretanto, já tem menos vidas que ela.
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