1.Isso ainda não passou?
2.És muito nova para ter artrite.
3.Oh, eu sei o que é isso. Ultimamente, ando com uma dor de costas daquelas!
4. Só precisas de fazer exercício.
5.Não pareces doente.
6.Já foste ao psiquiatra? Se calhar isso é uma depressão.
7.Não, não é pesado. Segura aí!
8.Já experimentaste aqueles comprimidos amarelos?
9.Por que não experimentas glucosamina ou omega3 ou produtos sem glúten, em vez de te entupires com medicação?
10.Olha, bebe isto e vais ver que melhoras (Ou come amoras…)
11.A única coisa que precisas é de perder peso (ou ganhar peso!)
12. Pelo menos não é cancro.
13.Li sobre uma mulher que se curou com suplementos vitamínicos, antibióticos...
14.Deves ter pouca resistência à dor.
15.A minha avó tem isso.
16.Tomei aspirina e a minha artrite desapareceu.
17. Mulher doente, mulher para sempre! Ainda nos vais enterrar a todos!
Com todo o meu amor
rita
quarta-feira, 6 de julho de 2011
quarta-feira, 4 de maio de 2011
constatação
A verdade em nós surge quando não se está feliz, já que na felicidade somos mais iguais, tal como escreveu Tolstoi na abertura de Anna Karenina: «Todas as famílias felizes são iguais, mas cada família infeliz é infeliz à sua maneira».
terça-feira, 26 de abril de 2011
Acordar
Saber aproveitar a vida quando ela está traquila é um dom que nem todos sabem controlar. A efemeridade dos momentos calmos, mesmo que monótonos e rotineiros, traz tranquilidade. E é importante que o saibamos reconhecer, pois quase tudo pode mudar de um minuto para o outro e é nesse momento em que desejamos que tudo voltasse a ser como era antes: monótono e rotineiro. Temos de aprender a dar (imenso) valor a uma ida ao cinema, a um passeio na praia, a uma conversa com os amigos, a estar com quem se ama, a comer pela nossa própria mão, a... Estes episódios de bem-estar, repetidos e às vezes desvalorizados, são o «tudo». E o maior de todos os nadas acontece quando acordamos, quando abrimos os olhos por mais uma vez; essa é a banalidade que devemos sempre agradecer. Por isso, a Ema dá um grande bom dia ao dia quando acorda, e agradece ter acordado pela enésima vez, agradece a repetição, a monotonia e a normalidade dessa repetição. Ter acordado na sua cama e não numa cama de hospital. Cada um de nós escreve sobre aquilo que conhece e a Ema é isto que (re)conhece: o valor incomensurável que tem um acordar na nossa cama, na nossa casa, mesmo quando a intranquilidade interior acorda com ela. A Ema sabe dar valor à liberdade de poder sair de casa, caminhar, levantar-se e viver mais um dia. Mesmo quando está mais triste, ela sabe isso. Sabe que a sua/nossa condição humana é frágil e como é importante valorizarmos os momentos em que estamos bem. A doença, a fragilidade destrutiva, a dependência dos outros para comer, para beber e para viver são uma indignidade que a Ema sabe que deve evitar até ao momento que, talvez, um dia, infelizmente, não possa evitar. Por isso, ela valoriza tanto o momento em que, de manhã, abre os olhos e olha de novo a vida na cara. Ela dá um valor imenso ao momento em que acorda e a todos os outros enormes momentos. Mesmo quando não é capaz de fazer tudo o que tinha para fazer, a Ema está, a cada dia que passa, a aprender a aceitar que fez tudo o que conseguia fazer. Talvez o que consegue fazer não seja o mesmo que quer ou quereria fazer, mas ela está a cada momento, a cada respiração, a aprender a viver com essas pulsões e com essa emoções. Por isso, primeiro vive-as, depois tenta escrevê-las: uns dias, mais inspirada, outros, menos. Mas tenta, pois enquanto puder tentar, diminui as possibilidades de um dia se arrepender de não ter tentado. Um dia em que qualquer episódio menos feliz a coloque num hospital ou num outro mundo qualquer que ela ainda não conhece. Ela aproveita enquanto consegue e enquanto pode. E talvez um dia, ela consiga transformar todas essas pulsões, essas emoções e esses pensamento em palavras coerentes e originais. Metamorfosear essas pulsões e essas emoções em composições melódicas de palavras que contem histórias aos outros e que façam os outros mais felizes.
quarta-feira, 23 de março de 2011
segunda-feira, 14 de março de 2011
(diálogo a solo)
Como é possível estar a viver sem rumo quando ele está mesmo à minha frente? Também não sabes? Eu acho que sabes. Vá...diz-me lá...Eu acho que sabes. Por que dizes isso? Eu não sei se é assim. Mas, por que razão dizes isso?... Sim, contigo foi assim; comigo, acho que não será. Também não te entendo. O que perguntas? Não sei. Não sei o que te responder quando me fazes essas perguntas. Acho que tens razão em algumas das coisas que dizes, noutras não te quero dar razão. Até te poderia dá-la mas agora não quero. Não é bem não querer; a questão é que agora não posso. É por isso que consigo viver com um rumo incontrolável e vê-lo estampado à minha frente. No espelho? Foi espelho que disseste? Não, não é no espelho. É na sombra que ensombra os dias. É na sombra que me acompanha mesmo quando não quero, tal como o rumo que se traça mesmo sem ser pela minha mão. Olha, a propósito de sombra, recordas o que me contaste naquele dia na praia? Não, não foi isso. Não te lembras? Estávamos na praia, a maré estava cheia, calor, gente e ficámos deitadas à sombra a tarde quase toda. Sim, nesse dia. Pois, contaste-me o que se passou e quero que saibas que tal como me pediste mantive segredo. Espanta-te isso...estou a ver. Eu mantive o segredo. Aliás, tenho defeitos mas tenho essa (grande) qualidade: guardo para sempre um segredo. O de toda a gente, não só os teus. Que bom para mim? Acho que sim. Pois, e o que fizeste em relação a isso? Que bom, para ti. Eu não tenho feito nada de jeito. É como te digo, estou a viver o rumo que traçaram por mim.
quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011
não sei como é com os outros
Eu não sei como é com os outros, mas comigo, eu sei. É difícil, é muito difícil escrever uma tese de doutoramento. É um processo lento, cheio de avanços e recuos temperados pelas minhas profundas inseguranças e, ainda, marcado pelos serpenteantes percursos dos meus pensamentos. Os meus pensamentos não seguem a direito como acontece sobejas vezes com os carros orientados pelas preciosas dicas do GPS. Os meus pensamentos percorrem a vida dos outros, as preocupações (as minhas e as dos meus amigos e as dos meus pais e as da minha P.) seguem os raios intermitentes da luz do sol que ilumina a sala do meu T1 com kitchenette, através dos estores. Os meus pensamentos são desviados pelo som da sirene do carro da polícia, pelo alarme do carro de um vizinho, pela buzina de alguém que não consegue tirar o carro pois tem outro carro estacionado atrás dele, em segunda fila, e, principalmente, pela sirene das ambulâncias. Essas têm um poder fortíssimo sobre o vai e vem dos meus pensamentos. Penso: Antes estar aqui do que na ambulância, mas assim que penso isso mesmo, já me distraí e já lá vai o meu pensamento para longe das teclas do computador. Vai para dentro do hospital, para o lado do avesso das dores dos outros e das minhas. Por que não das minhas também?!
Escrever uma tese de doutoramento exige concentração - eu penso mesmo que à maneira de como se falava nos anos 80 - escrever uma tese de doutoramento é o CÚMULO DA CONCENTRAÇÃO:) Ora, para quem me conhece. Corrijo: Para quem me conhece agora aos 40 e a viver os 40 que vivo, concentração é dos truques mais difíceis de conseguir. A minha concentração está ao nível da cave, melhor, da garagem do prédio onde, infelizmente, o meu carro não dorme.
Escrever uma tese de doutoramento não tem nada, absolutamente, nada a ver com a nossa inteligência (seja isso o que for). Escrever uma tese de doutoramento é proporcional à nossa capacidade de resistência. Ao género da que têm os maratonistas. E eu, pelos vistos, sou mais um desses, umas dessas. Eu sou uma maratonista com paragens frequentes na box para rebastecer o oxigénio, a esperança, a energia e, acima de tudo, a persistência.
Eu não sei como é com os outros, mas comigo e para mim é difícil. E estou desejando o dia em que tudo isto termina. Para poder recomeçar a viver sem as costas doridas das horas sentada ao computador, para poder olhar a vida sem este peso que me imponho. Sim, eu tenho responsabilidade neste peso que me imponho; mas na verdade não sei fazer de outro modo. Provavelmente, os outros conseguem, mas eu não. Não sei como é com os outros, mas comigo não é fácil. Se calhar é porque viver comigo não é fácil. Penso muito.
Eu não sei como é com os outros, mas comigo é difícil...:) mas não se preocupem, eu posso não ser mais nada, mas sou uma resistente. Até já tenho a boina e o penteado à la mode de la résistance ou de la résistance à la mode:)!
Escrever uma tese de doutoramento exige concentração - eu penso mesmo que à maneira de como se falava nos anos 80 - escrever uma tese de doutoramento é o CÚMULO DA CONCENTRAÇÃO:) Ora, para quem me conhece. Corrijo: Para quem me conhece agora aos 40 e a viver os 40 que vivo, concentração é dos truques mais difíceis de conseguir. A minha concentração está ao nível da cave, melhor, da garagem do prédio onde, infelizmente, o meu carro não dorme.
Escrever uma tese de doutoramento não tem nada, absolutamente, nada a ver com a nossa inteligência (seja isso o que for). Escrever uma tese de doutoramento é proporcional à nossa capacidade de resistência. Ao género da que têm os maratonistas. E eu, pelos vistos, sou mais um desses, umas dessas. Eu sou uma maratonista com paragens frequentes na box para rebastecer o oxigénio, a esperança, a energia e, acima de tudo, a persistência.
Eu não sei como é com os outros, mas comigo e para mim é difícil. E estou desejando o dia em que tudo isto termina. Para poder recomeçar a viver sem as costas doridas das horas sentada ao computador, para poder olhar a vida sem este peso que me imponho. Sim, eu tenho responsabilidade neste peso que me imponho; mas na verdade não sei fazer de outro modo. Provavelmente, os outros conseguem, mas eu não. Não sei como é com os outros, mas comigo não é fácil. Se calhar é porque viver comigo não é fácil. Penso muito.
Eu não sei como é com os outros, mas comigo é difícil...:) mas não se preocupem, eu posso não ser mais nada, mas sou uma resistente. Até já tenho a boina e o penteado à la mode de la résistance ou de la résistance à la mode:)!
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
Já não há surpresas
A vida que se tem, raramente é aquela que se queria ter. As razões podem ser diversas. Pode suceder que não se tenha a capacidade de apreciar o que se tem. Pode acontecer que se seja um insatisfeito eterno. Pode suceder que não se tenha a capacidade de agir e pensar. Pode acontecer que seja mesmo verdade aquilo que se sente: a vida que se tem não é aquela que se deveria ter.
Isto disse-me a Matilde no outro dia. Estava triste, ela. Eu já não sei o que lhe dizer; muitas vezes fico em silêncio, apenas a ouvi-la falar, a limpar-lhe as lágrimas ou a reduzir o som dos gritos que lhe saem dos olhos. Ela até tem razão, a vida tem sido tão cheia de surpresas (e não das supreendentemente agradáveis, mas das outras: do outro tipo de surpresas, das desagradáveis) que a Matilde sente-se com pouca força para as digerir. Durante uns tempos consegue, mas durante outros, não. E não sabe como ter a vida que queria ter.
Ela disse-me isto e saiu da sala.
Virou costas e foi mudar de roupa. Muda de roupa muitas vezes. Acho que o faz porque isso lhe acompanha o ritmo do seu pensamento. E o seu pensamento é rápido e, com frequência, confuso. Ela tenta, eu já a vi muitas vezes tentar, sentir-se menos confusa e tentar gostar da vida que tem: com supresas surpreendentemente desastrosas e tudo o mais. Mas quase nunca ela consegue. Não se sente bem.
Sente-se sozinha e coloca nos lábios instáveis as palavras que ouviu no outro dia no cinema: _Chego a casa e está lá tudo como deixei: a chávena do café por lavar, o mesmo cd na aparelhagem, a mesma dobra no edredon – a dobra que ficou quando de manhã tentei fazer a cama - a tampa da sanita para baixo, a tampa da pasta dentífrica no sítio, os sacos da reciclagem nem mais cheios nem mais vazios, o mesmo perfume no ar, as botas como as descalço. Tudo espelhamente igual ao momento no qual saí de casa. Saio e regresso sempre para o mesmo cenário. Acho que é isso também o que me faz mal: a ausência de surpresas surpreendentemente agradáveis. O mesmo do mesmo não é bom quando à partida o mesmo não está bom. Fazem-me falta surpresas, das do tipo supreendementemente boas.
Disse isto e regressou ao quarto. Acho que foi outra vez mudar de roupa.
Isto disse-me a Matilde no outro dia. Estava triste, ela. Eu já não sei o que lhe dizer; muitas vezes fico em silêncio, apenas a ouvi-la falar, a limpar-lhe as lágrimas ou a reduzir o som dos gritos que lhe saem dos olhos. Ela até tem razão, a vida tem sido tão cheia de surpresas (e não das supreendentemente agradáveis, mas das outras: do outro tipo de surpresas, das desagradáveis) que a Matilde sente-se com pouca força para as digerir. Durante uns tempos consegue, mas durante outros, não. E não sabe como ter a vida que queria ter.
Ela disse-me isto e saiu da sala.
Virou costas e foi mudar de roupa. Muda de roupa muitas vezes. Acho que o faz porque isso lhe acompanha o ritmo do seu pensamento. E o seu pensamento é rápido e, com frequência, confuso. Ela tenta, eu já a vi muitas vezes tentar, sentir-se menos confusa e tentar gostar da vida que tem: com supresas surpreendentemente desastrosas e tudo o mais. Mas quase nunca ela consegue. Não se sente bem.
Sente-se sozinha e coloca nos lábios instáveis as palavras que ouviu no outro dia no cinema: _Chego a casa e está lá tudo como deixei: a chávena do café por lavar, o mesmo cd na aparelhagem, a mesma dobra no edredon – a dobra que ficou quando de manhã tentei fazer a cama - a tampa da sanita para baixo, a tampa da pasta dentífrica no sítio, os sacos da reciclagem nem mais cheios nem mais vazios, o mesmo perfume no ar, as botas como as descalço. Tudo espelhamente igual ao momento no qual saí de casa. Saio e regresso sempre para o mesmo cenário. Acho que é isso também o que me faz mal: a ausência de surpresas surpreendentemente agradáveis. O mesmo do mesmo não é bom quando à partida o mesmo não está bom. Fazem-me falta surpresas, das do tipo supreendementemente boas.
Disse isto e regressou ao quarto. Acho que foi outra vez mudar de roupa.
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