sábado, 10 de outubro de 2009

a minha irmã aos 12 anos

Hoje é um dia especial, descobri, já depois de ter perdido a minha irmã, há catorze anos, um texto que ela escreveu quando tinha 12 anos, em 1986. Decidi partilhá-lo porque ela também sou eu. E eu sou «como um livro aberto».

A GUERRA À PORTA

Eu sou uma rapariga e o meu nome é Marta.

Tenho uma família maravilhosa: minha mãe é uma mulher activa, alegre, trabalhadora, uma mulher extraordinária . Meu pai é muito [sic], é um homem calado, trabalhador, simpático, mas tem uma cara triste. Mas a minha irmã, é uma pessoa que eu adoro, tem um feitio maravilhoso, a sua maneira de pensar é desenvolvida de mais para as suas 15 primaveras.

Bem agora que já contei como era a minha família, vou falar um pouco de mim.

Como vos tinha dito, chamo-me Marta, tenho 12 anos, ando no Ciclo Preparatório.

Tenho muitos amigos, que me ajudam nas alturas difíceis da minha idade ( idade do armário).

Sou uma rapariga pensativa ao máximo. Adoro o convívio entre a juventude e as pessoas de idade.

Acho que as pessoas não podem pensar só nelas, devem pensar também nas crianças a morrer de fome, nos países em que o céu anda cinzento.

Porque nós não sabemos o que estará à nossa frente, o que nos poderá acontecer.

As pessoas devem olhar para a realidade, para o Sol que dará luz até existir, não pensar só na sua felicidade, na esperança e que sempre haverá Paz.

Paz! O que é isto para as pessoas?

Paz, o que esta palavra tão apagada pela linguagem diária das pessoas, o que quer dizer?

Quer dizer amor, darmos as mãos e uni-las com todas as crianças da Terra; é a amizade entre os homens, a justiça, isto tudo é Paz !

Mas onde está a Paz?

Porque não vemos nós Paz em vez de guerra?

Vamos acabar com as bombas, com a raiva entre os homens, com a frieza das pessoas, mais propriamente com a guerra!

Mas, porquê a guerra? Resolve assuntos importante?

Ou será só para matar tantas e tantas pessoas que sem culpa dos outros que as causam, resolvem eles sozinhos os seus problemas.

Porque eles só pensam em guerra, nas bombas, na crueldade, na violência.

É por isso que eu, uma jovem que não viu a vida lá fora, aconselho a juventude a lutar e vencer pela Paz!

A Paz faz falta à juventude; é mostrar o que é amor e não crueldade, violência, que os leve para uma vida sem esperança, porque para eles o melhor é o roubo, a violência, a droga, o assassínio.

Quanto é tempo pela Paz!

Paz onde andas tu, porque desapareceste assim? Ninguém te viu partir, foste andando lentamente, ou a guerra venceu-te?

Por favor, eu quero perceber! Porque se eles querem a guerra matem-se a eles e não aos outros, não matem crianças, idosos e jovens !

A guerra bateu à porta!

Alguém lhe abriu a porta, pensando que trazia alegria.

Eu e muita gente queremos a Paz, mas a guerra é mais forte.

A guerra vence o amor. Se nós jovens a deixarmos vencer, entrar como se tudo lhe pertencesse, como se tivesse o direito de matar e estragar o mundo que é nosso! Pertence-nos! Mas não vamos ficar a olhar para ela a ver desgraça em cima de desgraças.

Por isso vamos lutar e vencer pela Paz!

Quero só amar que tanta falta faz!

Que é rara a pessoa que passa na rua e vê a Paz!

Só vê é guerra!

Só se vê bombas!

Só se vê ódio!

Só se vê crueldade!

Porquê?

Porque não há Amor neste planeta chamado Terra, onde tantas e tantas pessoas vivem aqui?

Porquê?

Porque não se juntam e formam um mundo cheio de Paz e Harmonia?!

Quando poderemos abrir a janela e ver o Sol a brilhar, o céu azul, as flores com vida, as crianças a sorrir para nós, a brincar com alegria, ver os campos, os prados, as florestas verdes, verdes cor da esperança?!

Esperança, Alegria, Amor, Paz , Harmonia.

Onde vimos onde ouvimos?

Não vimos nem ouvimos, nem em casa nem na rua!

Porque todas as pessoas vêem que sózinhas não conseguem vencer a violência.

É por isso que eu aconselho para todos nos juntarmos e formar um mundo cheio de Amor!

E lutar, lutar até derrotar, essa palavra tão feia, tão feia!

Mas será que a guerra chegará ao nosso país?

Não! Nós todos juntos podemos lutar contra ela, nós todos juntos venceremos.

Porque se ela um dia vier para o nosso país, ela vai destruir a nossa natureza.

Cá ainda tudo é verde, porque ninguém o destruiu, nem vão destruir, se os jovens não

deixarem, mas para isso é preciso LUTAR!

LUTAR pela Paz, essa palavra tão apagada pelas pessoas, porque ninguém vê Amor.

Nos países em que o céu está cinzento só se ouve choros e gritos de crianças, o que é horrível, mas para nós não ouvirmos nem vermos isso, vamo-nos juntar e formar um mundo cheio de Amor!

Se nós não lutarmos não podemos imaginar o nosso futuro , porque ele não vai ser assim, vai ser cinzento e preto, cheio de armas e exércitos onde não vai haver lugar para flores, para sermos felizes!

O mundo está em guerra, ouço os gritos por cada lugar que passo.

As flores quando nascem, logo morrem, não deixando traços.

Porque o mundo está em guerra e o monstro da guerr já começou a destruir a Terra.

Amo a Natureza, o Sol, o Mar,

mas...

Mas tenho medo,

medo, medo que tudo acabe

com uma simples guerra.



MARTA

3 comentários:

LuzAzul disse...

Ao ler o texto escrito pela Marta quando tinha 12 anos, tão consciente da crueldade e da brutalidade que é a guerra, e da necessidade de que haja Paz, uma vez mais, confirmo a sua precocidade, a sua capacidade de pensar como uma pessoa crescida, quando ainda prequentava o 2º ano do ciclo preparatório. Muitas vezes, ao ler os seus textos, me questiono se haverá muitos adultos que conseguirão escrever textos com esta consciência e esta vontade de que o mundo fosse melhor; a Marta, que desde muito pequenina questionou certos problemas da humanidade,nunca ficando indiferente ao sofrimento, à maldade, à pobreza.
Por isso, eu não me conformo, que esta menina com um coração do tamanho do mundo nos tenha deixado para sempre. Quantas saudades!!!!
mãe Zuzu

Anónimo disse...

Pois é mãe. Tens toda a razão. Não é justo e as saudades são imensas.

Guida disse...

Adorei ler o texto da Marta. Lê-la é recordá-la, é senti-la entre nós. E é isso que temos que guardar e perpetuar - a memória de alguém a quem amamos muito, apesar da distância que entre ela e nós se interpôs.

Beijinhos , Rita.