quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

oferenda

Ainda a propósito do meu aniversário, ofereceram-me um cd que não conhecia mas pelo qual depressa me apaixonei: «No Longer at Ease» da Nneka. A oferenda veio da minha amiga S.V. - com quem estou pontualmente mas com quem partilho momentos intensos de amizade e sinceridade - talvez seja mesmo pelo facto de a ver poucas vezes que quando estamos juntas partilhamos em torrente as emoções que nos assolam naqueles e noutros momentos. A S.V. é especial por ser como é e por me dar a oportunidade de eu ser como sou quando estou com ela: frágil e desarmada.
Fica aqui o meu poema favorito deste cd:

GYPSY

Is it the past that stops me from growing
A wish to change yesterday though
I know it is future damaging
Slowly recognising life cannot stay the same
Wish beautiful moments can remain
I pray and don't lose the track that God makes me run
Cos without you, without the light, there is no sun
Oh but what is it that we have?
Still we have not arrived, still fall apart and still I ask...

Will I wonder 4 the rest of my life
Will I break free from my imprisoned minds
But still we're Gypsies 4 the rest of our lives
And will we ever break free and free your minds

Got to maintain our peace of mind
What to do is to keep it steady, keep it focussed
People come, people go, friends become enemies
Today they love you and tomorrow they forget
Some may speak out your secrets, your desire
and at the same time they want you to suck your power
They smile at you, they give you kisses
and the same time backstab you and give you

Will u recognise ur soul is naked before u
Will u hide your own sin when u know the truth
Will u drown in your own tears and self distruct
Will u break the rules and be concerned

No but will we wonder for the rest of our lives
Will we break free from our imprisoned minds
Cos we're still Gypsies for the rest of our lives
"forever searching"
Let's break free and free our minds.

Obrigada S. pelos momentos que esta e outras músicas me ofereceram enquanto o B. ouvia e via mais um jogo de futebol!
The stupid neither forgive nor forget; the naive forgive and forget; the wise forgive but do not forget.
- Thomas Szasz

domingo, 14 de dezembro de 2008

eu já suspeitava que havia quem concordasse comigo...

«It has been my experience that folks who have no vices have very few virtues.»
Abraham Lincoln

a busca da felicidade que nos faz sentir ainda mais infelizes

A falta de sorte e a felicidade

Há quem processe a informação da sua vida em voz alta e há quem o faça em silêncio. Eu pertenço ao último grupo. Sempre pertenci. Eis uma das razões pela qual talvez não escreva tão frequentemente neste blogue: porque escrever aqui é como processar a informação em voz alta.
A razão pela qual não o faço já a expliquei num dos posts anteriores mas, acima de tudo, tem a ver com um certo pudor em partilhar tudo o que se passa dentro da minha cabeça. Pontualmente, lá o ultrapasso e escrevo ou falo com alguém. Todavia, o resultado nem sempre é o esperado. Se estamos numa maré de pouca sorte, por exemplo, quando contamos o primeiro contratempo a alguém, é frequente recebermos umas palavras de simpatia e reconforto. Quando contamos o terceiro e o quarto contratempos já se fica com a sensação de que a pessoa que nos ouve acha que somos nós quem atrai o azar e/ou que está com pouca paciência para nos ouvir. E possivelmente tem razão. A sorte tal como o azar vai e vem. E quando o segundo se instala o melhor é ficarmos silenciosamente à espera que passe. O mesmo sucede quando se fica doente. Há dias falei com uma colega que está doente há três anos. Nos primeiros meses, foram vários os telefonemas que recebeu para saber como estava, mas ao final de alguns meses eram raríssimos os contactos do exterior para saber como se sentia ou como reagia aos tratamentos. O ser humano é assim. Não gosta de estar perto de quem está numa maré de azar. Será esse um dos defeitos da humanidade ou apenas uma característica? Se for defeito, é terrível e uma demonstração monstruosa de egoísmo. Se for característica, pode-se interpretá-la como sendo a única forma que nós temos para ser felizes. Todos (ou quase todos) vivemos em perseguição da felicidade e momentos e pessoas que não são ou não estão felizes lembram-nos de que aquilo que perseguimos, na realidade, não existe; e isso desanima qualquer um, não é assim? Como tal, é mais fácil ignorar a infelicidade dos outros e fingir que vamos sendo felizes na perseguição inútil e infrutífera da nossa felicidade eterna. Na realidade, a felicidade não é possível e fazer disso uma missão de vida é tornar-se cada vez mais egoísta.

domingo, 7 de dezembro de 2008


Esta foi uma das mensagens que me enviaram no dia do meu 38º aniversário e à qual eu respondo com: OBRIGADA linda amiga!
Porque gosto muito das diferentes "texturas" que compõem a pessoa tão especial que és;
Porque combinas a fragilidade e beleza desta rosa e a robustez e fiabilidade deste tronco;
Obrigada pela tua amizade e os votos de um dia muito feliz!
Beijinhos,
C.

o meu 38º aniversário

Fiz anos há pouco tempo e foram tantas as coisas que me passaram pela cabeça. Apesar da tonalidade mórbida que um comentário como aquele que vou fazer pode adquirir, acho que ele deve resultar de um pensamento recorrente quando se faz anos. Em primeiro lugar, é necessário lembrar que acordei às 5 da manhã no dia do meu aniversário, entrei no carro – estava imenso frio – e fui para Lisboa com o meu marido e amigo Bruno que às 9 e pouco da manhã me deixou à porta da Nova onde eu ia assistir a uma conferência internacional (o adjectivo é aqui importante para ilustrar o contexto onde me coloquei nessa manhã do meu 38º aniversário). Cheguei já atrasada, por isso quando entrei no anfiteatro já estava tudo sentadinho a ouvir um professor do King’s College. Entrei o mais silenciosamente possível, enviei um sorriso ao meu professor que estava sentado ao lado do conferencista e ali fiquei. Chegada a altura da pausa para café, estava sozinha no meio de muita gente que conversava entre si ou para si. Tudo bem. Olhei. Vi as caras e tentei descortinar estados de espírito talvez porque eu mesma estava a tentar perceber o meu. No dia seguinte, aquelas pessoas iam ser a minha plateia quando eu fosse fazer a minha comunicação e antes que eles me vissem, eu queria vê-los (a eles e a elas). Terminada a pausa para café, regressei ao anfiteatro – o mesmo onde defendi a minha tese de mestrado e que naquela sexta-feira, 28 de Novembro de 2008, me pareceu velho e a precisar de umas boas camadas de tinta. Mas, estava a dizer, sentei-me a ouvir o que diziam. Chegou a hora de almoço, estava a chover e na ausência do chapéu-de-chuva e do meu cartão multibanco, não tive alternativa senão ficar a almoçar no refeitório da faculdade. Os cinco euros que tinha comigo pagaram-me o almoço e uma garrafa de água e ainda um café. Nada mau. Almocei sozinha, a tentar dar resposta aos sms que me enviaram durante a manhã. Mensagens muito bonitas de pessoas que se lembraram de mim no meu dia de anos. Essa hora de pausa deu para pensar. Como estava sozinha apesar de cercada de pessoas por todos os lados, cheguei à conclusão – e é agora que vou fazer o tal comentário que referi no início – que as pessoas, na verdade, as amigas que me haviam enviado todas aquelas mensagens, umas a chamarem-me «princesa Rita», outras a desejarem que aquele dia «se repetisse por muitos e muitos anos», outras a dizerem que se lembraram de mim e que me enviavam beijos – dei por mim a pensar que se morresse (porque os aniversários estão intimamente associados à morte, eles são o princípio dela) aquelas seriam as pessoas convidadas para o meu funeral. Foi assim mesmo, mas saliento que este pensamento não era desagradável. Nada disso. Pelo contrário, eram mesmo aquelas pessoas que eu quereria que estivessem no momento da minha partida.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

conversa com amigas

Hoje estive com as minhas lindas amigas. São lindas e corajosas. Falámos pouco porque os deveres não nos deixaram mais tempo, mas foi tão bom vê-las e ouvi-las que vou guardar aquele momento. Pessoas como elas há poucas. E a propósito da conversa que tivemos deixo aqui uma citação que explica o que não conseguimos concluir durante os minutos que estivemos juntas. Disse Flaubert: «To be stupid, selfish, and have good health are three requirements for happiness, though if stupidity is lacking, all is lost.» Até à próxima minhas lindas!
Rita

terça-feira, 11 de novembro de 2008

aumento o som até deixar de pensar

No começo do dia, ouço o despertador, as notícias, os sons das máquinas, ouço o toque do telemóvel, olho para a agenda, para os livros, para as contas a pagar, para os compromissos e deveres e fecho-me. Será possível fazer de outro modo? Reagir de qualquer outra maneira? Acho que não. Somos demasiado frágeis para conseguir absorver tudo isto com facilidade. Então, vou para o campo, para a aldeia, onde nada acontece, enterrar a minha cabeça e tentar deixar de ouvir os compromissos, as contas, as notícias. Mas regresso. Tenho de regressar. E vou continuando a jogar o jogo. Interminável e inesgotável. Alinho, vou continuando até ao dia em que puder deixar tudo para trás. Para ajudar, ponho um cd a tocar, bebo um café e coloco o som no máximo até conseguir deixar de pensar. É uma estratégia. Na maioria das vezes funciona. Faz-me sentir ainda mais adolescente. Com o som no máximo, deixo de ouvir as máquinas, o telemóvel, a agenda, o computador, as pessoas. Fico melhor. Fico como se estivesse num aquário de música.
Obrigada música.
Tua Rita

terça-feira, 21 de outubro de 2008

de regresso

estou de regresso. pelo menos intermitentemente. não faço promessas pois todos nós sabemos que elas foram feitas para serem quebradas, daí que dê mais valor à verdade de assumir a inconstância deste blogue. durante este verão pensei neste espaço e houve ocasiões em que me apeteceu escrever. só que limitei-me a escrever na minha cabeça. é verdade: escrevi textos belíssimos só que nunca os passei para o ecrã. eram textos lindos, bem escritos e de grande valor existencial. nem imaginam, a qualidade. na realidade, foi do melhor que escrevi até hoje...só foi pena, dirão vocês, não os ter concretizado nas teclas do pc. mas agora a palavra «regresso» aplica-se. após a pausa maravilhosa do mês de agosto, marraquesh foi lindo, recuperei algumas energias e agora é trabalho a todo o vapor. para além das aulas aeróbicas de três horas cada uma, existe uma coisa chamada «tese». a tese não é fácil mas é sem dúvida uma chance para a descoberta. é uma descoberta não só daquilo que estou a aprender sobre o tema mas é acima de tudo uma oportunidade de descoberta (mais uma vez) de quem sou e de quem caminho para ser. escrever um texto daquela dimensão desperta o melhor e o pior em mim. o melhor: desenvolve a minha capacidade de divagação perante o ecrã do computador, a minha enorme e imparável capacidade de imaginação que me permite transportar-me para outros sítios quando estou sentada à frente do computador, a minha capacidade de dormir à tarde, de manhã, ao princípio da tarde, ao final da tarde, a minha capacidade de comer chocolate quase todos os dias, a minha capacidade de cumprir os deveres burocráticos impostos pela vida em sociedade, isto é, coloco à frente da tese a ida às finanças, aos correios, ao centro de saúde actualizar o meu cartão que ainda estava com a morada antiga, à edp pagar contas, enfim, um mundo de tarefas burocráticas que parecem uma delícia em comparação à feitura da tese e cuja realização só é possível graças à tese - tudo isto foram descobertas fantásticas que só a realização de uma tese me poderia oferecer. estou mesmo a pensar em colocar tudo isto na secção agradecimentos do volume a que chamarei tese em estudos anglo-portugueses. tenho a certeza de que o juri compreenderá. Sobre o pior que a tese veio descobrir em mim: afinal, descobri eu, sou cumpridora e por essa razão sofro quando não cumpro; sou responsável e por essa razão sofro quando quando não escrevo pelo menos duas páginas de tese por dia; sou estável e por essa razão persisto contínua e frequentemente a não escrever regularmente a tese. não diriam que é fantático? afinal uma tese é uma oportunidade única de acesso ao nosso mundo, uma porta que nunca abririamos se a tese não tivesse de ser feita. beijos

sexta-feira, 16 de maio de 2008

nada é assim tão simples

Desculpem não ter escrito ultimamente, mas isto de viver não é assim tão simples que possa ser transcrito com frequência para um blog. Desculpem, não há nenhuma má intenção da minha parte e nem vos estou a manter na escuridão.
Para além do mais, como ainda não consegui cumprir o objectivo inicial deste blog (nem simultaneamente cumprir a promessa que fiz a minha amiga margarida), ou seja, falar da experiência de alguém que vive com artrite reumatóide, sinto que isto não está a correr muito bem. Ainda tenho de arranjar coragem para levar a cabo essa missão.
Até breve.

domingo, 4 de maio de 2008

A Amizade

Rita minha amiga, fiquei muito FELIZ ao voltar a ver-te e a falar contigo. És uma querida e consegues chegar muito mais à frente do que é normal e habitual. Amo-te do Coração!!! Esta é mais uma declaração de amor e de amizade. Estou muito Feliz por nós, por mim e por TI. Gostei especialmente da tua (vossa reacção tua e da Margarida) em relação a um amigo algo distante mas SEMPRE presente....BEIJOS e até breve....

uma noite

Uma noite a jantar com os amigos é o meu prato favorito. E é também nestes momentos que a felicidade, tal como ouvi um dia, compensa em intensidade o que lhe falta em extensão.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

valioso

Para além do «dinheiro não traz a felicidade» - alvo do meu último post - que deve, muito provavelmente, vir em primeiro lugar dos lugares-comuns mais gastos e usadinhos por todos nós, há um outro, que ao contrário deste, me é profunda e genuinamente verdadeiro: a amizade vale ouro. Porquê? Porque se o dinheiro ainda pode comprar aquelas coisas que dão conforto, ele não pode comprar a amizade. Não a amizade com verdade. Essa é o nosso reflexo, é uma conquista muito nossa e um mérito que só a nós é devido. E tudo grátis. Mas o valor da amizade não é só esse, ou seja, não advém do facto de eu a saber um prolongamento de mim nem o facto de ser à borla. Ela é valiosa porque é rara, raríssima, uma autêntica preciosidade daquelas que não existem nem no Eldorado descrito por Voltaire no genial romance Cândido. Eu acho mesmo que cada um dos meus amigos deveria ser eleito entre as mais belas maravilhas do mundo de tão únicos e lindos que são. Os amigos, e as amigas num lugar muito, muito especial, são o colo nos momentos do dia-a-dia em que nos vamos abaixo, são aqueles que nos dizem ter muitas saudades nossas, são aqueles que nos olham e nos decifram sem uma palavra dita, são aqueles com quem estamos bem e protegidos. As minhas amigas são lindas. Todas. As minhas amigas são os meus anjos-da-guarda. Obrigada amigas. Adoro-vos muito.

domingo, 27 de abril de 2008

universos paralelos

Ainda que nos meus melhores dias, acredite, em sintonia com a sabedoria popular, que o dinheiro não traz a felicidade, também são muitos os dias em que defendo convictamente que esse dizer é apenas uma panaceia para aqueles que têm falta de dinheiro.
Digo isto agora porque, recentemente, tive acesso a um dos diversos universos paralelos que nos rodeiam: concretamente, àquele onde o dinheiro não falta e pude confirmar - na primeira pessoa - que a historiazinha do «dinheiro não traz a felicidade» é uma autêntica aldrabice. Na verdade, se houver dinheiro e uma bela dose de bom-senso, a felicidade fica a dois passos e é só uma questão de minutos para mergulharmos nela e chafudarmos nos vários prazeres e, sobretudo, na tranquilidade que esta fórmula produz em nós. Se tivermos dinheiro, ou melhor, se não tivermos falta de dinheiro ficamos mais tranquilos e essa tranquilidade deixa-nos mais felizes. Quem tem coragem de me contradizer, se eu lembrar que o dinheiro traz o conforto fresco nos dias quentes de Verão e o aconchego quente nos dias e, principalmente, nas noites de Inverno? E não estou aqui a falar do simples facto de ter uma casa: felizmente já não estou nessa fase. Estou a falar de ter a possibilidade de construir a nossa casa com os melhores materiais, aqueles que não criam humidade nem frio glaciar, nem rachas que se abrem do tecto até ao chão (ou vice-versa), nem deixam a nossa roupa (aquela que compramos com os tostões que vamos tendo) a cheirar impossivelmente a bolor. Estou também a falar de ter dinheiro suficiente para ir passar férias - não me refiro sequer a ir de férias quando me apetece, pois para isso era preciso muito mais dinheiro do que o ideal - mas como estava a dizer ter a possibilidade de conhecer o mundo. Estou ainda a falar de não ter que gastar o nosso coraçãozinho com a preocupação das contas para pagar. Estou ainda a falar de não ter que pensar no dinheiro e escrever sobre o dinheiro.
É indiscutível: Desde que haja bom-senso, quando se tem dinheiro vive-se, muitíssimo, melhor, mais tranquilo e a tranquilidade traz tudo, até a saúde. E andava eu a pensar nestas coisas quando hoje - Domingo - vi um programa de televisão no qual aparecia uma família sem dinheiro. Apresentavam-se todos como sendo muito amigos uns dos outros: o pai amava muito a mãe, a mulher amava e admirava muito o marido, os irmãos amavam os pais, eram todos saudáveis, enfim, uma família linda, mas que não conseguia ser feliz ou não tão feliz como mereciam pois não tinham o dinheiro suficiente para comprar uma casa nem para a manter depois de, eventualmente, a terem. E é aí que entra a TV: ofereceram-lhes uma casa (linda) e um cheque de 50 mil euros e depois de muitas lágrimas de alegria e abraços emocionados, ouve-se a mãe a dizer qualquer coisa como isto: «finalmente estou feliz; agora já tenho tranquilidade e paz para viver bons momentos com a minha família.». Foi com esta frase que eu confirmei uma vez mais (já a confirmara algumas vezes e noutras ocasiões) a minha teoria de que o dinheiro traz a felicidade e que nem o maior amor do mundo é suficiente para se ser feliz se não houver dinheiro. Eu até posso amar muito as pessoas à minha volta e ser amada em igual proporção, mas se não puder pagar uma consulta médica ou colocar comida na mesa, como é que eu vou poder ser feliz. Ok, podem lembrar-me que no Brasil, por exemplo, há milhares de pessoas sem dinheiro e todos são felizes e contentes, mas isso para mim não significa nada. O nosso mundo aqui é um, o deles é nitidamente outro: outro universo paralelo. Neste, onde agora estamos, só quando não se tem falta de dinheiro é que se tem a chance de ter também a muito desejada tranquilidade. E tenho dito!
nota: Disseram-me tantas vezes para ter um blog, agora aguentem-me se conseguirem:)

domingo, 13 de abril de 2008

Silêncio

É complicado decifrar os silêncios, mas talvez mais ainda perceber aquelas pessoas que nunca se calam. Se é uma arte saber escutar, tenho dúvidas (sérias) de que falar de mais seja uma também. Quem fala demasiado e demasiadamente alto, enerva-me, afoga-me mesmo. Estas estrelas da companhia deveriam ser proíbidas de actuar sem pedir autorização àqueles que, apanhados de surpresa, vão ser o seu público durante horas, durante muitos e muitos minutos. Creio que quem fala de mais está muitas vezes sequioso de atenção mas não sou eu quem tem a obrigação de lhe matar a sede. Mas, no entanto, faço-o: ao calar-me. Calo-me e ouço, pois se no início da acção ainda pensei em intervir passados momentos já não tenho a energia que me foi sugada pelo auto-falante à minha frente.
Porém, quando quem fala de mais é um amigo nosso, a história é muito diferente. Quando se trata de um amigo nosso, nós queremos ouvir, saborear cada palavra e principalmente cada emoção por trás de cada palavra e quando isso acontece, no meio das nossas vidas agitadamente vazias, é mais uma daquelas preciosas oportunidades de termos a certeza de que aquela pessoa só poderia ser mesmo nossa amiga.
Mas eu não estou a falar de amigos: estou a falar de amigos de amigos, daqueles que nos são colocados à frente num determinado momento da nossa vida e aí só mesmo a lealdade de uma amizade nos faz não fugir dali a sete (oito) pés. (Não entendo como se pode fugir a sete pés se, na maioria dos casos e se tivermos sorte, temos um par de pés - logo quem foge a sete pés está a correr ao mesmo tempo que coxeia. E é sabido que quem coxeia corre mais lentamente do que quem não o faz. Por essa razão, eu fujo (quando posso) a oito pés (com três pares para além daquele que a natureza me deu).
Quem fala de mais - e não é meu amigo - tem, ainda por cima, o azar de ter muito tempo e oportunidade de se contradizer, de se revelar incoerente, de se tornar chato e de se transformar num ser incómodo. E como quem o ouve já não tem ar para falar, tem de gramar com toda aquela verborreia e só o faz recorrendo a uma arte ancestral: o silêncio. Silêncio que nunca é entendido pela pessoa que fala de mais: essa está convencida que não temos estrutura para acompanhar o seu raciocínio rápido e serpenteante.
Posto isto: de futuro vou esforçar-me por ouvir só aqueles que me apetece ouvir. Vamos ver se consigo.vamos ver.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

AR - part II

Tal como disse da última vez, que me sentei aqui a escrever, viver com uma doença crónica não é das coisas mais fáceis de fazer. Também tal como referi, esta condição só surgiu quando eu já tinha 25 anos, o que implicou que eu tivesse de reaprender a viver. Sei que todos nós vivemos acontecimentos que nos fazem ver a vida de modo diverso daquele que víamos antes de uma circunstância qualquer vir abalar tudo o que conhecíamos e tinhamos como certo e seguro. E, na verdade, quando ficamos doentes é também isso que sucede. Começamos a ficar doentes e tudo muda. Mas ao mesmo tempo o mundo não muda só porque nós mudámos e na maioria dos casos somos nós que nos temos de adaptar. Temos de nos adaptar ao trabalho que faziamos antes de ficarmos doentes porque o trabalho ficou exactamente igual e fomos nós que mudámos. Temos de nos adaptar à família que já tinhamos. Temos de nos adaptar à casa que haviamos comprado antes da doença aparecer. Temos de nos adaptar, ponto final. No meu caso, este ajustamento foi, relativamente, natural. O que não significa que não tenha havido um grande esforço meu para que tudo tenha sido, tal como afirmei, progressivo e natural. Porque na verdade, o meu aspecto exterior mantinha-se e manteve-se, fundamentalmente, igual àquele que tinha antes de tudo acontecer. E como quem me via, via-me igual, isso obrigava-me, no sentido mais positivo da palavras, a agir do modo que sempre agira. Por vezes, isso cria uma espécie de dupla personalidade - mas provavelmente podemos encará-la como apenas mais uma das máscaras que colocamos em sociedade.

quinta-feira, 13 de março de 2008

AR desde 1995

Tenho 37 anos e tenho artrite reumatóide há cerca de 12, desde 1995. Às vezes parece que passou muito tempo, outras parece que foi um segundo. Se pensar nos milhares de comprimidos que já tomei parece que passaram séculos, pelo contrário, se pensar na dor - como aprendemos a viver com ela - parece menos. Não é fácil falar sobre isto, por isso hoje acaba e continuarei noutro dia.

sexta-feira, 7 de março de 2008

É isto aquilo a que se chama teimosia?

Um registo para que nunca me esqueça desta fenomenal obra de Voltaire:
«[...] Martin veio a concluir que o homem era nado e criado para viver na inquietação, ou na letargia do aborrecimento. Cândido não concordava, mas não contrariava. Pangloss confessava que sempre sofrera horrivelmente, mas tendo afirmado uma vez que tudo ia às mil maravilhas, mantê-lo-ia sempre, embora não acreditasse em nada disso.»
Voltaire [1759] (2000). Voltaire. Trad. Maria Archer, Biblioteca Visão, Lisboa: 118.)

quinta-feira, 6 de março de 2008

nem sempre totalmente jovem

Há sempre partes do nosso corpo que envelhecem mais cedo do que outras e quando isto acontece temos de aprender a conviver com elas debatendo-nos com o paradoxo de em nós coexistir a juventude e a velhice.

domingo, 2 de março de 2008

entre o mar e as páginas de um livro

Conclusão: as pessoas independentes não são as mais felizes.
«E ela olha para ele com o coração palpitante sabendo que está a falar de um assunto sério, ainda que tenha dificuldade em entendê-lo, dois seres humanos têm tanta dificuldade em se entenderem, nada é tão trágico como dois seres humanos.»
(Halldór Laxness, Gente Independente: 304)

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

ler

A real book is not one that we read, but one that reads us.


Auden, W. H. on Books - Reading

Quote from Quotations Book

por que razão decidi ter um blog?

Isto de ter um blog é, no final das contas, uma decisão estranha que fica ainda mais complicada se tomar total consciência de que estou a criar este espaço para escrever, quase inevitavelmente, sobre mim. Sim, porque quando se escreve, queiramos ou não, passamos muitas mensagens sobre nós. Sendo eu uma pessoa bastante reservada, detesto que saibam mais sobre o que penso e o que sucede na minha vida do que eu mesma. Então, para quê criar um blog? A resposta está, quase toda, num dos posts anteriores, ou seja, porque uma querida amiga acha que seria bom criar este escape. Apesar do poder de sugestão da Margarida não ser maior do que eu, foi um empurrão que me pôs a pensar: por que razão não tentar? Talvez até seja divertido e uma espécie de fuga ao remoinho que as ideias e, principalmente, os pensamentos controem na minha cabeça. Mas tudo isto não elimina, por completo, a estranheza e o desconforto de lidar com esta nova e potencialmente desconfortável forma de exibicionismo que pode ser um blog.
Li agora o blog do chá de letras onde recordei uma citação que me fez procurar outra. Esta. É uma citação terrível, mas mesmo assim aqui fica.

Man is the only animal that can remain on friendly terms with the victims he intends to eat until he eats them.
Samuel ButlerEnglish composer, novelist, & satiric author (1835 - 1902)

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

primeiro dia

Hoje pedi ajuda e ajudaram-me. Deveria ser sempre assim, não é? Quando se pede ajuda é porque se precisa. Mas eu tenho perdido esse hábito. No entanto, ultimamente tenho precisado de activar esse dom e essa capacidade. E foi assim que dois amigos - a Isabel e o Paulo - se prontificaram a ajudaram-me a começar este blog. Mas antes deles foi a minha grande e querida amiga Margarida que insistiu, noites dentro, para que eu tivesse um espaço como este para me ajudar e, esperançadamente, ajudar outros. Espero que sim, que isso suceda. Vamos ver: hoje é só o primeiro dia.

portimão

hoje