sexta-feira, 1 de maio de 2009

A minha irmã

É difícil escrever sobre a minha irmã - a sombra - que faz parte de mim e da qual eu fazia parte, que cresceu comigo mas que me abandonou cedo de mais, ficando para sempre sombra. A minha irmã chamava-me «arco-iris» e eu chamava-lhe «chiquinha». A diferença na escolha das «alcunhas» é reveladora da essência de cada uma de nós: ela um doce, eu mais palerma; principalmente porque a minha irmã não gostava que eu a chamasse de «chiquinha», dizia que a fazia lembrar um macaquinho amestrado. Acho que tinha razão, mas nem sei como nem quando comecei a atribuir-lhe esse «petit nom».
A minha irmã era um doce, uma pessoa muito meiga, muito atenta aos outros e que era acima de tudo minha amiga, acontecesse o que acontecesse: uma sombra - projecção de mim - que me acompanharia para sempre. Mas não, a sombra deixou-me: deixou-me profundamente só, como se não bastasse a dor. Não há culpas, mas há sofrimento. Apesar das diferenças, a minha irmã era eu e eu era a minha irmã. Com a partida da minha irmã, partiu também a minha infância, as recordações dos vinte e cinco anos que vivi com ela. Ela partiu e eu fiquei. Ainda não sei porquê. A minha irmã chamava-me sempre «meu arco-iris» por isso ainda hoje, quando nos dias de sol e sombra, alguém me diz «Olha o arco-iris! Lindo!», o meu coração fica pequenino, como se mais uma vez fosse atravessado pela mais horrível das dores. É pena, porque o arco-iris é de facto lindo, mas para mim ele é só sombra. A sombra da minha irmã que me acompanha e me deixa tão só.
Amo-te chiquinha
arco-iris

2 comentários:

LuzAzul disse...

Para mim, a mãe de vocês, a tua irmã não é uma sombra que me segue. Ela está dentro de mim... sinto-a aqui no meio do peito, bem junto ao osso do externo, do lado esquerdo, bem junto do meu coração.
Sei que ela está sempre ali presente, pois o lugar que ela escolheu "um buraquinho" dentro do meu peito, aconchegado e quente, por vezes sinto-o, sinto que algo "mexe" lá dentro, que há mais alguma coisa entre o osso do externo e o coração, e eu sei que é ela... que me acompanha.
Mãe

Maria Esteva disse...

A Marta para mim não é uma sombra. Apesar do tempo ...é uma presença viva que sinto no olhar, no gesto, no sorriso duma jovem que passa na rua; na sua expressão terna quando vejo as suas fotografias com os meus filhos; nos objectos que me ofereceu e ainda guardo e me "confortam"; na memória que ainda guardo da sua ternura e bondade.
Recorda tudo de bom que viveram juntas com os pais maravilhosos que tiveram e felizmente ainda te acompanham. Não podemos apagar o passado, mas vamos fazer com que as recordações boas prevaleçam sobre as mais duras, melhorando o presente e perspectivar um futuro que mereces, onde consigas apreciar, de facto, a beleza do arco-íris.
Tia Odi