sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Para sempre

Tal como no romance (lindo, magnífico, comovente) de Vergílio Ferreira, a personagem recorda - no final da sua vida - o seu passado e, curiosamente, o seu futuro, também eu hoje (mesmo com a memória desgraçada que tenho) decidi recuar ao dia 4 de Feveveiro de 1995: O dia que ficará para sempre marcado no meu sangue.

Acordei, tomei banho, vesti-me, comi e saí para ir dar um exame. Apesar de ser sábado, havia exame. Havia exame, mas não havia telemóveis como hoje em dia. Eu, pelo menos, não tinha um. Estava a meio do exame, no anfiteatro e uma funcionária vem dizer-me que me tinham telefonado. Os meus pais tinham-me telefonado ou o Ricardo tinha-me telefonado. Não me lembro. Também por uma razão que não recordo, não telefonei de volta a partir da escola, fui a uma cabine telefónica que está no parque de estacionamento da universidade. Aí telefonei para o Ricardo (se calhar, a chamada tinha sido mesmo dele).

A voz que ouvi estava calma. Disse-me que a minha irmã estava no hospital e que eu deveria ir para Beja. O dia estava lindo e frio. A voz ao telefone não me disse mais nada. Assim que desliguei o telefone, pensei que a Marta tinha tido um acidente de mota. Assim que desliguei o telefone, senti o negro dentro de mim. Mas afastei-o: ela só tinha tido um acidente de mota, provavelmente, uma perna partida, um braço partido.

Regressei ao edifífio da escola a tremer mas não pelo frio. Fiquei a tremer durante muito tempo. Deram-me logo ali um calmante porque me acharam muito nervosa. Eu não queria: dizia que tinha sido apenas um acidente de mota. Mas não sentia que tinha sido apenas um acidente de mota. Sentia mais, mas não queria sentir mais.

Saí da universidade, fui a pé para a estação do comboio (o comboio está muitas vezes presente na minha vida), esperei pelo comboio, entrei no comboio, saí em Tavira. Fui a pé até casa do Ricardo. Vi caras calmas. Pensei que o que sentia estava provavelmente errado. Se calhar foi mesmo só uma perna partida.

O Ricardo disse que me levava a Beja. Antes de entrar no carro, a mãe do Ricardo fez-me uma festa na cara. Aí tive a certeza que o que sentia estava cada vez mais certo. Aquela festa na cara tinha uma mensagem.

Entrámos no carro. Estava um dia lindo, sol e frio. Lembro-me que parámos para comer algures para lá de Mértola. Não me lembro do que conversámos na viagem, mas não conversámos nada sobre a Marta. O Ricardo já sabia (penso eu) e não devia querer dar-me pistas.

Chegámos ao hospital de Beja. Entrei. O meu nome é Rita e venho visitar a minha irmã. Como se chama? Chama-se Marta. Qual é o piso onde está e qual é o número do quarto? Silêncio. O negro crescia dentro de mim. Silêncio. Vá aí para essa sala à direita que a médica vai falar consigo. Fui. O Ricardo estava comigo. A médica entrou. A Marta morreu. Eu desmaiei. Quando acordei estava noutro sítio - para sempre - num sítio onde eu tremia; até ouvia o som dos meus dentes a baterem. Para sempre fiquei outra. Para sempre perdi a minha irmã. Para sempre terei saudades dela. Para sempre a minha irmã ficará jovem. Para sempre, a minha irmã não vai sofrer mais. Para sempre, eu fiquei diferente. Para sempre, a minha irmã existirá.

Por tudo isto, tal como o protagonista do livro de Vergílio Ferreira, hoje recordo o meu passado e até o meu futuro pois tu estiveste/estás/estarás para sempre na minha vida.

Amo-te, Marta.
Sinto que estarás bem. Para sempre.

3 comentários:

Patrícia disse...

Um beijo, amiga.

Maria Esteva disse...

Pois é. Era sábado. Tinha acabado de chegar à Marisol com o Rodriguinho e André. O telefone tocou. Era a tua mãe... telefonei ao tio, metemo-nos no carro e fomos para Beja entre chocados e confusos...à espera q o engano fosse desfeito. Até hoje...

Se um abraço bastasse para aliviar o teu sofrimento, abraçava-te eternamente.

Cristina Alves disse...

Li o teu blog num trago. Devorei-o num repente e fiquei com pena de o terminar. Adorei ler o que escreves (tão bem) e congratulo-me por nos encontrarmos numa época que permite uma partilha tão profunda como aquela que aqui ofereces. Acabei de ler este teu último post (tão emotivo) e sinto que ganhei mais alguém, como se tivéssemos sido apresentadas pessoalmente e tivéssemos tido uma agradável conversa íntima. E nesta conversa íntima também eu fui participando, revelando a minha solidariedade, os meus receios, a minha admiração.. Gostei particularmente do post das tuas nove casas e da inquietação com aquele buraco que abriu no tecto da tua casa, inquietada fiquei com a dúvida entre a coragem ou a inconsciência, levaste-me às lágrimas quando escreveste sobre a Marta e achei fantástica a forma original como devolveste a dor que a tal médica te entregou de forma imprópria (de tão habituados às suas relações a solo com os calhamaços, deixam de saber lidar com a fragilidade de quem não é um livro técnico).
Tudo isto para dizer que gostei de te conhecer e que, embora eu não apareça no blog enquanto tal (porque não percebo nada disso), serei uma seguidora assídua.
Beijinhos,
Cristina (filha da Lena Guia)