sábado, 29 de janeiro de 2011

inverno

O Janeiro chegou frio. Afinal já era inverno há um mês e ainda não o tinha sentido na pele. Nem no seu armário tinha ainda mudado a ordem das roupas: das mais frescas para as mais quentes. Nem as caixas debaixo da cama onde ela guardava os sapatos, as botas, as socas tinham a ordem que o inverno pedia. Ainda estavam todos misturados: os sapatos, as botas, as socas, os chinelos. Era uma tarefa a fazer. Apenas as écharpes de lã já estavam em cima da cadeira que tem no quarto. A cadeira ao lado espelho. Mas o frio chegou e nessa manhã, a Matilde acordou e conseguia quase cheirá-lo. Como todos os dias, Matilde acordou e, como todos os dias, ficou feliz por abrir os olhos e estar viva. O primeiro gesto que fez foi aquele que mais detesta mas aquele a que a obrigação a obriga: olhar para o telemóvel para ver as horas. As horas controlam-na, ainda mais do que a controla o telemóvel. Haverá poucas pessoas que detestam tanto este objecto como ela o detesta. Só dá sinais do mundo quando não deve e quando deve tocar torna-se um vegetal: não dá sinais do mundo nem da vida dos outros. O telemóvel toca mais nos dias de semana. Por isso, essa é uma das coisas que mais gosta nos fins-de-semana: o bicho sonoro não mexe. Fica moribundo e ela regozija-se por vê-lo assim: quase morto - la mort du téléphone - essa poderia ser a legenda do fim-de-semana da Matilde. Se pudesse não o tinha. Mas é fim-de-semana e ela também agradece isso: o silêncio do bicho. Tal como agradece quando acorda. Não se lembra quando o começou a fazer: a agradecer. Mas já lá vão uns anos. E já não consegue fazer de outra maneira. Não sabe a quem agradece o facto de acordar com todos os sentidos no sítio. Mas agradece. Hoje o inverno está em casa dela. Ela recebe-o com a arrumação das roupas no armário e dos sapatos e socas nas caixas. Sai de casa, cruza-se com pessoas em casulo. Tal o frio. Sabe-lhe bem sentir o ar na cara. Regressa a casa e traz ainda o inverno consigo. E fica Invisível a Ver a luz fosca do dia No sofá da sala.

2 comentários:

LuzAzul disse...

Mudaste o aspecto visual do teu blog. Gostava das bolinhas... agora acho que está preto de mais... tens que escolher um que não revele tanto o teu estado de espirito... um mais "arco-iris" como tu és... o arco-iris de muitas vidas que por ti têm passado. O arco-iris da mãe que te gerou e pariu.
Hoje vi o arco-iris e pensei que a tua vida tem que voltar a ter as 7 cores do arco-iris... É URGENTE...
É URGENTE DEIXARES DE PENSAR EM PRETO...

rita disse...

Já mudei:) beijos para ti mãe